outras coisas

13/09/2001

 

Publicado no Globo, em 12.09.97


Profissão de fé



Ontem, como talvez saibam alguns, foi o Dia do Jornalista. Relembro Gabriel García Marquez: "Ninguém que não tenha nascido para isso -- e que não esteja disposto a viver só para isso -- pode persistir numa profissão tão incompreensível e voraz, que se completa depois de cada notícia, como se fosse para sempre, mas que não concede trégua enquanto não recomeça, com vigor renovado, no instante seguinte."

A frase, pronunciada durante a abertura da reunião anual da SIP (Sociedad Interamericana de Prensa), fica mais elegante em espanhol, mas sua verdade intrínseca não se perde na tradução. Não sei de trabalho mais digno ou emocionante do que o jornalismo, cuja essência é uma busca obsessiva, por vezes suicida, da verdade; se soubesse, estaria lá, e não aqui. Tenho profundo orgulho desta profissão, e um permanente sentimento de gratidão às circunstâncias da vida que me permitiram pertencer a esta singular confraria, com suas peculiaridades, idiossincrasias e paradoxos: we few, we happy few, we band of brothers.

Acho importante falar nisso num momento em que se promove, mundo afora, a mais histérica -- e hipócrita -- caça às bruxas, hoje conhecidas como paparazzi. Nove rapazes de motocicleta, correndo sério risco de vida seguindo um carro dirigido a 196 km por hora pelo guarda-costas embriagado de um playboy arrogante.

Acho importante observar que esta caça às bruxas vem sendo conduzida pela mesma imprensa que contratava o serviço dos ditos rapazes; ou alguém acredita sinceramente que não há melhor programa para se fazer em Paris num sábado à noite?

Acho importante ainda ressaltar que, caça às bruxas ou não, o questionamento do papel da imprensa pela própria imprensa significa, apesar de tudo, a existência de um núcleo de coerência que se mantém íntegro, por fundo que seja o lodo. Num mundo regido por um corporativismo cada vez mais deslavado, a imprensa é a única instituição que cisma em pôr a cara na janela, apedrejando-se a si mesma.

Acho importante, finalmente, frisar que nunca houve janela tão grande quanto a que se abre, agora, na era da comunicação eletrônica; nunca, tampouco, foi tão grande o número de pedras.

Aviso aos navegantes: nos últimos sete anos, apenas na América Latina, 160 jornalistas foram assassinados no exercício da profissão.

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