Publicado no Globo, em 12.09.97
Profissão de fé
Ontem, como talvez saibam alguns, foi o Dia do Jornalista. Relembro
Gabriel García Marquez: "Ninguém que não tenha nascido para isso -- e que não esteja disposto a viver só para isso -- pode persistir numa profissão tão incompreensível e voraz, que se completa depois de cada notícia, como se fosse para sempre, mas que não concede trégua enquanto não recomeça, com vigor renovado, no instante seguinte."
A frase, pronunciada durante a abertura da reunião anual da SIP (
Sociedad Interamericana de Prensa), fica mais elegante em espanhol, mas sua verdade intrínseca não se perde na tradução. Não sei de trabalho mais digno ou emocionante do que o jornalismo, cuja essência é uma busca obsessiva, por vezes suicida, da verdade; se soubesse, estaria lá, e não aqui. Tenho profundo orgulho desta profissão, e um permanente sentimento de gratidão às circunstâncias da vida que me permitiram pertencer a esta singular confraria, com suas peculiaridades, idiossincrasias e paradoxos:
we few, we happy few, we band of brothers.
Acho importante falar nisso num momento em que se promove, mundo afora, a mais histérica -- e
hipócrita -- caça às bruxas, hoje conhecidas como
paparazzi. Nove rapazes de motocicleta, correndo sério risco de vida seguindo um carro dirigido a 196 km por hora pelo guarda-costas embriagado de um playboy arrogante.
Acho importante observar que esta caça às bruxas vem sendo conduzida pela mesma imprensa que contratava o serviço dos ditos rapazes; ou alguém acredita sinceramente que não há melhor programa para se fazer em
Paris num sábado à noite?
Acho importante ainda ressaltar que, caça às bruxas ou não, o questionamento do papel da imprensa pela própria imprensa significa, apesar de tudo, a existência de um núcleo de coerência que se mantém íntegro, por fundo que seja o lodo. Num mundo regido por um corporativismo cada vez mais deslavado, a imprensa é a única instituição que cisma em pôr a cara na janela, apedrejando-se a si mesma.
Acho importante, finalmente, frisar que nunca houve janela tão grande quanto a que se abre, agora, na era da comunicação eletrônica; nunca, tampouco, foi tão grande o número de pedras.
Aviso aos navegantes: nos últimos sete anos, apenas na América Latina, 160 jornalistas foram assassinados no exercício da profissão.