internETC.

05/02/2012

 

O árduo caminho do bem


Vera Cordeiro conta como levou o Saúde Criança, nascido numa cavalariça desativada, ao topo das ONGs


Ela se auto-define como “pedinte internacional”, e nessa qualidade viajou para Seattle, na semana passada, a convite da Fundação Bill & Melinda Gates, para expor o trabalho do Saúde Criança diante de 300 líderes da filantropia mundial. Este começo de 2012 anda movimentado para a Dra. Vera Cordeiro: de acordo com um ranking da revista suíça Global Journal divulgado há poucos dias, a sua instituição está em primeiro lugar entre as organizações sociais brasileiras, e em 38º entre as cem melhores do mundo. Os critérios utilizados para a seleção foram inovação, impacto, eficiência, estratégia, gerenciamento de finanças, transparência, sustentabilidade e reconhecimento – uma vitória e tanto para um projeto que nasceu numa cavalariça desativada.

Por que “pedinte internacional”? Porque, por incrível que pareça, boa parte dos recursos do Saúde Criança vem do exterior, onde a associação é mais conhecida do que no Brasil. Ela já recebeu mais de vinte prêmios internacionais e, mais importante, foi selecionada pelas duas principais fundações mundiais de apoio ao ativismo social, a Ashoka e a Skoll Foundation, que lhe deram ampla visibilidade no mundo das ONGs -- sigla que anda tão maltratada, aliás, que começa a ser rejeitada por quem trabalha com seriedade.

-- Eu sempre preciso explicar que a Skoll Foundation não tem nada a ver com a cerveja – diz Vera. – Seu fundador, Jeff Skoll, foi o primeiro funcionário do eBay. Ficou bilionário e em 1999, aos 41 anos, decidiu mudar o mundo. Como fazer isso? Procurou Bill Drayton, fundador da Ashoka e principal referência em filantropia, e recebeu o conselho de criar uma fundação que apoiasse empreendedores sociais.

Até hoje, apenas 85 ONGs foram premiadas pela Skoll Foundation. Pois em 2006, uma emocionadíssima Vera Cordeiro recebeu o prêmio das mãos de Robert Redford. Já Bill Drayton acha que há pessoas que tem, no campo social, o mesmo talento que um Bill Gates ou um Eike Batista têm no campo dos negócios, e que essas pessoas devem ser identificadas e apoiadas para ampliar o seu impacto na sociedade. Os dirigentes de ONGs que se enquadram nos severos critérios da Ashoka tornam-se fellows da fundação. Segundo uma clássica definição de Drayton, eles não dão o peixe nem ensinam a pescar, mas lutam para transformar toda a indústria da pesca. Tanto a Ashoka quanto a Skoll Foundation realizam encontros entre os ativistas que apóiam, transferem know-how entre eles e servem como importantíssimos cartões de visita para a captação de recursos.

Como é que uma modesta associação carioca, tocada por voluntárias, foi parar no concorrido mundo da elite do ativismo social? Quando se conhece a Dra. Vera, é fácil entender essa trajetória. Aos primeiros minutos de conversa, fica claro que essa mulher bonita, muito mais jovem do que os seus 61 anos, é uma pessoa determinada, movida pela paixão. Sua dedicação ao projeto é tanta que, nos primeiros tempos do Saúde Criança, os fundos vinham de rifas que ela fazia do que quer que encontrasse sobrando em casa. As filhas às vezes se desesperavam: “Meu tênis novo não, mãe!” Mas, quando ela convertia o valor de um Reebok em latas de leite em pó, a ação social falava mais alto do que as vozes das meninas.

o O o

Tudo começou no Hospital da Lagoa. Casada com Paulo, que trabalhava na IBM, e mãe de Marina e Laura, ela comparava a sua realidade com a das mães que chegavam ao hospital, e ficava extremamente angustiada:

-- Minha vida era uma loucura, -- diz. – Um dia eu estava em Lake Tahoe esquiando com meu marido e minhas filhas, e no dia seguinte estava no hospital, onde uma mãe trazia o filho para amputar a mão porque havia tomado o soro errado numa trambiclínica. A mãe dizia: eu entendi que tem que amputar. Mas a senhora tem um emprego para me arrumar? Uma outra vez, um colega me chamou para ajudar na quimioterapia de uma criança de sete anos. A mãe era uma pessoa da minha idade, muito envelhecida, com outros nove filhos além daquele com câncer renal. Eu tinha que ajudar aquela mulher a entender o que a criança ia passar. Depois que expliquei tudo, a mãe me disse: Tudo bem, doutora, entendi. Mas a senhora tem um lençol velho para me dar? Porque eu não tenho agasalho para o meu filho, e venho de Juiz de Fora para ele fazer a quimioterapia, que lá não tem. Ou o caso da criança que tinha má absorção, e que precisava tomar um leite muito caro: Doutora, a senhora cria o meu filho? Eu não tenho como criar, ele vai morrer. Ou ainda o menino com síndrome nefrótica, que era internado e tratado, ficava bom, e os remédios que ele precisava tomar eram devidamente prescritos; mas o pai era alcoólatra e a mãe tinha uma deficiência mental, e logo ele estava de volta ao hospital. Um dia, depois de muitas internações, ele não resistiu e morreu. Num país de primeiro mundo esse menino não teria falecido.

Vera percebeu que estava diante de um ciclo vicioso: miséria, internação, alta, reinternação e morte. Como médica, conseguia tratar a doença aguda, mas isso era pouco diante do problema real. Segundo a OMS, a causa de um terço das mortes no mundo é a pobreza -- e ela se deparava com essa causa diariamente. Não podia mais conviver com aqueles casos, e chegou à conclusão de tinha que sair do hospital para tratar, de fato, dos seus pacientes.

-- Eu precisava tratar também do lado psicossocial da doença, porque o adoecer é biopsicossocial, mas a medicina tradicional trata apenas do bio, -- observa. -- E do psicossocial, quem trata? Devia ser o governo, mas mesmo governos ótimos, como o do Canadá, não dão conta disso sozinhos. Mesmo que não houvesse corrupção no Brasil, o governo não daria conta, porque saúde não é só curar uma doença, saúde é tudo. Às vezes uma criança é internada com pneumonia ou tuberculose mas, se você for ver as condições de moradia dessa criança, vai constatar que qualquer um teria tuberculose lá, porque chove dentro da casa, não tem comida... A real causa das doenças, no mundo em desenvolvimento, ou na sua parte menos favorecida, é a miséria. São os profissionais da saúde que vêem, de perto, as conseqüências da trágica distribuição de renda no país. E vêem de pés e mãos atados.

Corria o ano de 1991. Vera juntou um grupo quixotesco de vinte voluntárias, e se estabeleceu num espaço que ocupava parte das antigas cavalariças do Parque Lage. Era lá que trabalhavam as voluntárias que, desde a época do presidente Dutra, costuravam roupinhas para as crianças do Miguel Couto. A líder deste grupo era amiga da mãe de Vera, e ofereceu abrigo para o novo projeto.

-- Fui conversar com o Betinho, que nos deu todo o apoio possível, -- lembra Vera. -- Nós precisávamos desesperadamente de dinheiro. Os padres, que eram os únicos que nos davam bola naquela época, diziam: “Vocês tocam o sagrado, crianças pobres doentes, Deus vai ajudar”. Tudo bem, padre, mas com que dinheiro? “O dinheiro há de vir”.

o O o

A estrutura inicial da organização era, basicamente, um armário com remédios e comidas -- mais o motorista da família, que em tese deveria levar Marina e Laura para o curso de inglês, mas era desviado por Vera para incursões às favelas, para checar as condições de vida das famílias atendidas. Os amigos começaram a fugir. Eles sabiam que, se ela ligasse, não era para ir ao cinema ou para bater papo, mas para pedir donativos. O pior é que, mesmo no hospital, o projeto era visto com reservas, como se fosse um hobby de senhoras entediadas.

A idéia do Saúde Criança, que então se chamava Renascer (nome descartado há dois anos para evitar confusões com a igreja evangélica), era atacar a miséria em várias frentes. Além dos cuidados com a saúde das crianças, o grupo conseguia documentos para as famílias, oferecia treinamento profissional para mães e pais e reformava as casas para garantir condições mínimas de moradia.

-- Fiquei meio apavorada no começo, -- diz Vera -- Volta e meia chegavam pacientes direto da Rodoviária Novo Rio perguntando “É aqui que dá emprego, comida e remédio?” Logo ia se espalhar que havia uma médica maluca no Parque Lage tentando salvar o mundo...

Não foi um começo fácil. Em pouco tempo, os vizinhos implicaram com o vaivém de miseráveis e retomaram as cavalariças. As voluntárias mudaram-se então para uma estrutura menor, o antigo galinheiro de Gabriela Bezansoni-Lage. Vera conseguiu que o Banco Icatu o reformasse – mas, quando as obras estavam pelo meio, foram embargadas. Os vizinhos haviam entrado na Justiça, queriam que o Saúde Criança saísse de vez do Parque Lage. Vera não se deu por vencida. Alugou um trailer, e passou a tocar o projeto de lá.

-- Foi uma época terrível, -- lembra ela. – Um dia, fui à Barra da Tijuca para consultar a arquiteta que estava fazendo as obras. Ela me disse que não podia fazer nada enquanto o embargo vigorasse. Nós estávamos trabalhando dentro de um trailer, não tínhamos dinheiro, tudo era uma luta. E eu voltei da Barra dirigindo e brigando com Deus. Deus, eu dizia, se você não ajuda mais criança pobre doente, você pode me explicar o que é que Deus faz? Para que serve Deus? Qual é a sua job description? Não estou com paciência para Deus! Quero que o senhor me diga se eu devo continuar lutando para permanecer no Parque Lage ou se eu desisto de tudo. Mas eu quero uma prova cabal, entendeu, Deus? Ora, naquela época, eu tinha mandado fazer cem plásticos que diziam Renascer -- Grupo de Apoio à Criança e ao Adolescente, e que distribui entre os amigos. E, assim que chamei Deus às falas, um carro com esse plástico colado na janela de trás ultrapassou o meu. Não é que Deus responde? Mais tarde, quando consultei o I-Ching, também recebi uma resposta muito positiva. Dizia: “Após diversas batalhas, a vitória está garantida”. Pois olha, quatro meses depois, d. Ruth Cardoso estava inaugurando a nossa sede, construída onde era o antigo galinheiro.

Antes disso, animada pela resposta divina, Vera saiu batendo em todas as portas até chegar ao Palácio da Alvorada, onde foi expor a situação ao presidente Fernando Henrique Cardoso. O Parque Lage é federal, e só ele podia ajudá-la na briga com os vizinhos. Pouco depois, ele assinou um decreto garantindo a permanência do Saúde Criança no seu cantinho.

Em 1993, Vera deu um dos passos mais importantes para a sustentabilidade do Saúde Criança: candidatou-se a fellow da Ashoka. Foram nove meses de entrevistas. Finalmente, ganhou uma bolsa mensal de U$ 650 – mas, mais importante do que isso, ganhou uma vitrine mundial para o seu projeto. A Ashoka passou a mandá-la para todos os fóruns de ativismo social, para que apresentasse o Saúde Criança e fizesse contato com outras pessoas que, como ela, estavam tentando melhorar o mundo.

-- Uma vez, apresentei o nosso projeto para 200 consultores da McKinsey. Quando terminei, todos aplaudiram de pé... e eu desatei a chorar. Até então só tinha tido dificuldades, estava sendo expulsa do Parque Lage e, de repente, era compreendida.

O resto, como se diz por aí, é história. Desde a sua fundação, o Saúde Criança já ajudou mais de dez mil crianças e mais de 2.800 famílias. Juntas, as 23 organizações que copiaram seu modelo em outros estados apoiaram mais de 40 mil pessoas. Os resultados são excelentes: o índice de reinternação das crianças assistidas cai em média 65%, e a renda das famílias aumenta cerca de 40%.

-- Quando me perguntam qual é o objetivo do Saúde Criança, eu respondo que é transformar miseráveis em pobres, -- diz Vera.

Os números lhe dão razão: é preciso começar pelo começo.


(O Globo, Rio, 5.2.2012)

VOLTE PARA O BLOG

09/01/2012

 

Geraldo Carneiro: o ritmo acelerado do poeta mineiro





2011 foi um ano movimentado para o poeta Geraldo Carneiro. Ele traduziu o que define como uma versão redux de Romeu e Julieta, chamada “RJ de Shakespeare”, que estréia essa semana em São Paulo depois de uma vitoriosa carreira carioca; escreveu para a Globo, com Alcides Nogueira, a novela “O astro”, baseada na obra de Janete Clair; a pedido de Daniel Filho, fez as introduções para os 16 episódios de “As brasileiras”; apresentou-se com a atriz Mariana Ximenes pelo Brasil afora, numa série de palestras que vão virar DVD; adaptou “Gota d’água”, a peça de Paulo Pontes e Chico Buarque, para o cinema, a pedido de Roberto Talma; lançou seu segundo CD, “Gozos d’alma”, pela Biscoito Fino; e começou alguns projetos que serão terminados em 2012, entre eles o roteiro cinematográfico de “A casa dos budas ditosos”, a quatro mãos com o autor e grande amigo João Ubaldo Ribeiro, e “Discurso do amor rasgado”, livro em que celebra seus trinta anos de convívio com Shakespeare, e que será publicado pela Nova Fronteira. Tudo isso fora o varejo de canções e poemas, que brotam naturalmente, sem esperar ocasião.

É muita coisa para um poeta só, mas o tempo e o trabalho fazem bem a Geraldo Carneiro, casado desde 2008 com sua linda musa Ana Paula Pedro. Ele reclama em tom de troça da decrepitude física e metafísica, mas mudou espantosamente pouco desde que começou a aparecer, ainda adolescente, no cenário da música brasileira.

o O o

No front doméstico, o ano não foi menos intenso. Em fevereiro nasceu o primeiro neto, Santiago, filho do filho mais velho, Joaquim (30 anos); e, quatro meses depois, veio ao mundo Vinícius, o filho mais novo. (Antonio, o do meio, tem 14 anos). Como costuma acontecer com bebês, ainda mais quando são dados e risonhos, Vinícius é o rei da casa.

-- O Vinícius é um carnavalesco, vai no colo de todo mundo, acha a maior graça, gosta de tudo. Parece o velho Vinicius. Quando nós escolhemos este nome para ele, fiquei rindo durante um mês, porque nunca imaginei que um ser tão pequenininho pudesse ter o mesmo nome daquele outro Vinicius, que foi tão importante na minha vida. Ele gravou uma música minha quando eu ainda era menino, acabei escrevendo a primeira biografia dele e fomos muito amigos, ainda que no começo eu o olhasse com um certo cuidado, porque o achava licencioso, libertário demais. Eu me sentia meio careta ao lado dele, e olha que para eu me sentir meio careta nos anos 70 era complicado... Ele era muito doido. O Vinicius me inspirava sentimentos paradoxais: amor, admiração, inveja. Era de um carinho extraordinário, me ensinou a fazer coisas impublicáveis! Lamento ter tido em relação a ele aquela tendência parricida que as gerações mais novas têm em relação às gerações anteriores, lamento não ter convivido com ele da forma amorosa que ele propunha, eu mantinha um olhar crítico, ia à casa dele, ficamos amigos, mas nunca chegamos a ser realmente íntimos.

O convívio entre Geraldo e o Vinícius pequeno foi afetado pelo trabalho na novela, mas de forma positiva: como atravessa as madrugadas escrevendo, ele pode observar a evolução do filho num horário em que poucos pais estão acordados. Entre uma cena e outra de “O astro”, acompanhava as mamadas e resmungos noturnos do seu bebezinho. No momento, as madrugadas estão menos longas, mas não menos produtivas. Vinicius dorme, enquanto o pai trabalha em novos roteiros e escreve sobre os 60 anos que fará em junho. Idade que, como sabem todos que chegaram lá, parece muito distante até o momento em que bate à porta.

-- Todo mundo conta que, quando vai para a fila especial, acha que os outros vão ficar indignados, mas que nada, todos acham perfeitamente natural aquele cara lá... (risos) Estou me enchendo de trabalho para afastar o espectro que ronda os sexagenários. Aliás, que palavra horrível, implica uma série de trocadilhos... Mas não posso me queixar. Estou num momento apaziguado e feliz. Há guerras dentro de mim, mas são guerras de aperfeiçoamento, não guerras de destruição. E tenho me cansado tanto de trabalhar, que tenho sonhado muito com aquelas coisas de um ser humano padrão, aquele ser humano que quer se alimentar e dormir, em suma, certos prazeres da existência aos quais eu nunca tinha prestado atenção, e que, por força das circunstâncias, estão me parecendo espetaculares. Jantar, dormir, uma vida pacífica... quem diria!

o O o

Geraldo Carneiro nasceu em Belo Horizonte, mas mudou-se para o Rio aos três anos, quando o pai, secretário de Juscelino Kubistchek, veio para a então capital. Pelo apartamento da família, em Copacabana, políticos, músicos e escritores circulavam com a mesma desenvoltura, o que acabou marcando a sua infância e a dos irmãos, o músico Nando e a historiadora Elizabeth.

A música, quase uma segunda natureza, começou cedo. Seu primeiro parceiro, ainda na adolescência, foi Eduardo Souto Neto. Os dois compuseram juntos “Choro de nada”; Vinicius de Moraes gostou, decidiu gravar, mas achava que precisava mudar um verso. O final original era “Retomo o rumo de casa / Com um sorriso nos olhos / Você não sabe de tudo / Você não sabe de nada”; Vinicius queria “Retomo o rumo de casa / Com a alma reconfortada / Você não sabe de tudo / Você não sabe de nada”. Com a arrogância dos 18 anos, Geraldo não permitiu. E foi embora para Roma, trabalhar com Astor Piazzola num musical sobre Evita Peron que acabou não saindo. Enquanto estava por lá, recebeu uma cartinha gentil de Eduardo, que contava que a canção havia sido gravada – sem entrar em detalhes. Na volta ao Rio, meses depois, é que descobriu que a mudança de verso havia, afinal, sido feita.

Mas a história dessa música, até hoje uma das suas letras mais conhecidas, não acaba aí. Passaram-se três ou quatro anos, e Tom Jobim também quis gravá-la, junto com Miúcha... mais uma vez trocando o verso da discórdia! Dessa vez ficou “Retomo o rumo de casa / Na noite desconsolada / Você não sabe de tudo / Você não sabe de nada”. “Choro de nada” só foi gravada com a letra original no ano passado, por Danilo Caymmi, para o CD “Gozos d’alma”.

De “Choro de nada” até hoje foram mais de 200 canções, em parcerias com o irmão Nando, com Egberto Gismonti, com Astor Piazzolla, com John Neschling, com Francis Hime, com Wagner Tiso. E, desde então, os seus versos foram deixados em paz.

o O o

Vendo o mundo da sua infância e juventude pelos olhos de hoje, Geraldo Carneiro não alimenta falsas ilusões. O planeta era mais instável e, com certeza, bem mais explosivo:

-- Você se dá conta de que, quando nós éramos crianças, o mundo podia ter acabado? A crise dos mísseis, em 62, foi o preâmbulo do apocalipse. Depois, em 64, veio a ditadura militar, vivemos momentos muito difíceis. Agora, embora as pessoas não se dêem conta, estamos vivendo um momento particularmente feliz. Há uma distensão social, uma tolerância, uma aceitação da alteridade... Há conquistas do Século XX que entraram com força pelo Século XXI. Veja a Primavera Árabe, que coisa maravilhosa, quem teria imaginado isso? Claro que tudo é muito precário e pode acabar da noite para o dia, e os dinossauros vão para as cucuias. Nós, os novos dinossauros, podemos ter o mesmo destino. Mas é bom não perder de vista as coisas boas quando estão acontecendo. O mundo é cheio de descontinuidades, mas tomara que haja uma continuidade nesses processos.

-- Isso, claro, se a profecia dos maias não se concretizar e o mundo não acabar em 2012...

-- Ah, os maias não têm muito prestígio profético aqui no Rio não. Cesar Maia, Rodrigo Maia... o Dem está por baixo. (risos)

Geraldo Carneiro não espera um mundo muito diferente para o bebê Vinícius. O maior temor atual, o de um apocalipse ecológico, não o assusta: ele se agarra a uma “teoria ridícula” que, dada a devida licença poética, é até engraçada:

-- Wall Street fica ao nível do mar. Quando o mar subir dez centímetros e molhar o sapatinho daqueles executivos – aqueles sapatos caros, que eles compram em Londres – eles param instantaneamente de mexer com as empresas poluidoras. Então você tem um controle quase imediato da situação, graças aos sapatos londrinos de Wall Street. Não é uma boa teoria?

Do ponto de vista científico, certamente não, mas como pouca gente se entende mesmo sobre as causas e conseqüências do aquecimento global, ela é, provavelmente, uma teoria tão boa quanto outra qualquer. De qualquer forma, ela mostra uma das facetas mais divertidas do poeta: seu talento extraordinário para a conversa fiada, para o bate-papo sem compromisso que, viva ele!, sempre foi a marca registrada dos bons cariocas.


(O Globo, Rio, 8.1.2012)

19/12/2011

 

O sotaque português de um bistrô carioca



Um dia, os amigos Chico Mascarenhas e Ricardo Guimarães estavam jogando poôquer com as mulheres, Maria Cristina, a Tintim, e Priscilla. A certa altura, Ricardo reclamou de fome e Chico, que sempre cozinhou, resolveu fazer uma comidinha. Pois a comidinha ficou tão boa, mas tão boa, que, no ato, os dois resolveram abrir um restaurante. Arranjaram um ponto na Gávea, juntaram os nomes Guimarães e Mascarenhas, e o resto, como se diz por aí, é história: aos trinta anos, completados no outro sábado, o Guimas é um dos mais queridos restaurantes do Rio. Até hoje, aos domingos, a clientela encara filas homéricas, sem reclamar.

-- Nós inovamos na comida, -- diz Chico, sem falsa modéstia. -- Há um porquê meio matreiro nisso, que depois eu conto; mas inovamos também num outro detalhe. Fomos um dos primeiros restaurantes em que o dono era amigo dos clientes. Antes o dono era, tipicamente, um espanhol que ninguém conhecia.

Taí um pecado do qual ninguém podia acusar o luso-carioca Chico. Nascido em Lisboa há 63 anos, fotógrafo e bom-vivant, ele era conhecido em todas as rodas boêmias da Zona Sul; nada mais natural que seu restaurante virasse ponto de encontro dos companheiros.

o O o

Chico chegou ao Rio aos 15 anos, acompanhando os pais e os quatro irmãos. O pai, Domingos Mascarenhas, era diplomata, e vinha tentar mudar a percepção que aqui se tinha do Portugal salazarista. Quando a família seguiu em frente, o filho do meio ficou para trás, encantado com a cidade; mas nem todas as maravilhas cariocas foram suficientes para segurá-lo quando a ditadura começou a pôr as manguinhas de fora.

Uma noite, nos idos de 1971, Chico foi preso na Real Grandeza. Nada demais: estava sem documentos, usava jeans e cabelos compridos. Pela ótica militar da época, era um elemento suspeito. No quartel ouviu ameaças dos policiais e, assim que se viu livre no dia seguinte, decidiu ir embora. Ele tinha direito a uma passagem por conta do Ministério das Relações Exteriores de Portugal; ligou para o pai, que a essa altura estava em Moçambique dirigindo um jornal, e logo estava a caminho de Lisboa, onde passou a ocupar o apartamento da família.

No Rio, estudara fotografia e trabalhara como assistente do professor. Volta e meia sobrava uma camera na escola, e Chico saía pela cidade fotografando. Em Lisboa, passou a dividir o apartamento com o amigo Pedro Pinheiro Guimarães, que tinha máquina – que, por sua vez, a dividia com ele. Um fazia um filme, o outro outro, e assim por diante. Funcionava, mas ele tinha vontade de fazer vôos mais altos, e assim resolveu procurar Claudio Mello e Souza, diretor da sucursal da Manchete na cidade.

-- O Claudio era muito amigo do meu pai, -- conta. – Os dois eram apaixonados por Eça de Queiroz, chegavam a trocar correspondência sobre o Eça, e fui muito bem recebido por ele.

O jovem fotógrafo foi contratado, junto com o amigo Pedro. Pouco depois, Claudio assumiu a sucursal de Paris, e convidou-os a ir junto.

-- A sucursal de Paris era mais estruturada do que a de Lisboa e tinha um chefe de fotografia. O Cláudio disse que a última palavra sobre a nossa contratação seria dele, a quem ficaríamos subordinados caso fossemos aceitos. Naquela época eu tinha um irmão que morava em Paris, tinha vários amigos em Paris, e todos conheciam o Aléssio Andrade, chefe de fotografia da sucursal da Manchete. Quando souberam que seriamos julgados por ele, foram unânimes: “Nem se dêem ao trabalho de vir, ele vai rasgar os contatos, vai jogar os negativos para o alto, é super exigente!”.

Mesmo assim, Chico e Pedro resolveram tentar a sorte. Levaram cópias dos seus trabalhos e foram enfrentar a fera – que, de cara, descartou todo o material.

-- Ele não queria ver cópias das fotos; queria ver os contatos, para saber o que nós víamos, -- lembra Chico. -- Fomos aceitos, com uma recomendação: ir aos museus nas horas vagas. Eu pensei, esse cara é doido, quero ser fotógrafo e ele me manda para museu! Mas é lógico que essa era a melhor recomendação que ele podia nos dar. Assim treinamos o olho, aprendemos luz, composição, tudo. Até hoje tenho muita influência do Aléssio. Saíamos muito juntos, e há livros dele em que eu estou ao lado, ou entro na foto sem querer.

o O o

Foi em Paris que Chico e Tintim, que já se conheciam do Rio, acabaram se casando. Mas o que era divertido para um rapaz solteiro acabou se revelando cansativo para um jovem pai de família. Um dia, os dois decidiram fazer as malas e ir para a Indonésia. Estavam com tudo pronto quando Portugal e Indonésia romperam relações diplomáticas por causa da invasão de Timor Leste. O jeito foi voltar para o Brasil.

Bem que Chico tentou continuar na fotografia, mas nenhum dos trabalhos que aparecia o atraía. Tentou jornais e revistas, tentou fotografia de moda, mas nada. Quando viu, estava trabalhando na empresa de perfis de alumínio do irmão. Outro emprego para o qual não era talhado.

-- Um dia cheguei em casa e disse para Tintim: vou largar o emprego. Achei que ela ia reclamar mas, pelo contrário, me deu a maior força.

E aí aconteceu aquela famosa partida de pôquer com os amigos Ricardo (falecido há dois anos) e Priscilla. O momento, por acaso, revelou-se ideal:

-- Havia uma geração inteira começando junto, -- lembra ele. – Era gente de música, de poesia, de teatro. E havia psicólogos, publicitários, jonalistas... Os clientes eram amigos entre si. Além disso, o Guimas era bem pequenininho. Não que seja muito grande hoje, mas na época era ainda menor. Isso estimulava o clima de camaradagem. Nós tínhamos um painel de cortiça onde as pessoas deixavam recado umas para as outras: “Me liga”, “Me encontra aqui às nove” e assim por diante.

Os filhos dos amigos que moravam perto passaram a ver o restaurante como uma extensão de casa. Os próprios pais diziam que, qualquer problema, era só correr para o Guimas. Com o tempo as crianças cresceram, e já começam a trazer os filhos para almoçar, reforçando a tradição familiar.

A atriz Cissa Guimarães é uma das habituées da casa, que freqüenta desde sempre. Atualmente com peça no Shopping da Gávea, ali do lado, ela pode ser encontrada no restaurante noite sim e outra também:

-- Conheci o Chico quando dançava na Enid Sauer – lembra Cissa. – Eu devia ter uns 12, 13 anos. De repente olhei para a coxia, e lá estava um fotógrafo absolutamente deslumbrante, louro, de olhos verdes... Não acertei mais um passo depois disso! Com todo o respeito pela Tintim, foi paixão à primeira vista. Como tantos amores, aliás, esse também começou com paixão, e acabou virando família: o Guimas é mais do que meu restaurante, é quintal da minha casa, é minha família, é um lugar onde me sinto protegida e bem-tratada. Nem precisava ter uma comida tão boa, mas tem. Quem pode querer mais?

Outra que fala em família quando trata do Guimas é a estilista Isabela Capeto. Chico e a mulher Tintim, são vizinhos dos pais de Isabela, que acompanhou o crescimento das filhas do casal, Domingas, Luiza e Isabel, desde pequenininhas. Hoje orgulha-se quando vê Domingas, a mais velha, trabalhando no restaurante.

-- Sou super fã da casa, dos garçons, do Chico, da Domingas – diz Isabela. – O meu primeiro ateliê ficava muito perto, e fazíamos nossas reuniões na varanda do Guimas. Existe lugar mais agradável? Este ano mesmo comemoramos o aniversário do meu marido lá. A nossa vida continua passando pelo Guimas.

o O o

Chico e Tintim sempre gostaram de receber amigos. Mesmo quando moravam em Paris, e o dinheiro era curto, viviam inventando festas e jantares, para atual perplexidade de Chico, incapaz de perceber como aquela vida era possível com tão parcos recursos. Natural, portanto, que a hospitalidade se transferisse para o restaurante, que passou a funcionar como uma extensão da sala de casa.

-- Todo mundo me perguntava por que eu não abria um restaurante. É uma pergunta normal, sempre que alguém cozinha os outros propõem a abertura de um restaurante, acham que o restaurante é só o salão, só o glamour, esquecem que tem a parte de trás. Eu também esqueci, é claro, depois é que aprendi. Aqui é a festa, mas o pulmão é lá atrás.

Muitas pessoas que cozinham bem acabam mesmo abrindo restaurantes – para fechá-los pouco tempo depois. A simpática casa de Chico e Ricardo foi uma das poucas exceções à regra. O clima de camaradagem que sempre distinguiu o Guimas é certamente uma das razões da sua longevidade, mas aquele primeiro cardápio também foi muito importante.

-- Eu falei que havia um porquê meio matreiro nos nossos pratos. Claro que eu me irritava muito com o cardápio pesado e sem imaginação que encontrava nos restaurantes da época, mas a principal razão que nos levou a apresentar tantas novidades é que assim não era possível comparar nada. Ninguém podia comparar nosso filé boursin com o dos outros, porque não havia o dos outros... A truta com espinafre, o pato da fazenda, esses pratos que até hoje estão no cardápio, eram literalmente incomparáveis, pelo simples motivo que só nós os faziamos.

Outro truque que deu certo: a toalha de papel com o potinho de lápis de cera, sucesso até hoje com crianças e pais de crianças. A idéia, que é praticamente marca registrada do Guimas, antecede o restaurante. Um dos irmãos de Chico mora em Nova York, e uma vez, ao visitá-lo, ele ficou impressionado ao ver como Domingas, ainda pequenina, se distraía com a toalha e os lápis de um bar que freqüentavam.

Quando o projeto do Guimas começou a tomar corpo, e Chico e Ricardo começaram a estudar o “business restaurante”, descobriram que toalhas e guardanapos eram itens extremamente caros na equação. Ao optarem pelas toalhas de papel, o potinho de lápis de cera foi imediatamente lembrado. Está lá até hoje, assim como estão vários desenhos feitos por clientes, crianças e adultos, devidamente emoldurados. Outros, incontáveis, estão guardados, mas já serviram para decorar o Guimas do Fashion Mall e para uma exposição no Barra Shopping.

Frequentador assíduo, o poeta Geraldinho Carneiro tem uma teoria para explicar o sucesso e a longevidade do restaurante:

-- O Chico, que é um carioca falsificado, porque é português, conseguiu fazer, no Rio, um perfeito bistrô parisiense, -- diz ele. – Você passa pela maluquice do Baixo Gávea, entra numa ruazinha pequena e pronto, está numa sucursal da Brasserie Lipp. Tudo é muito simpático no Guimas, a começar pelo Chico e pela Tintim, que são uns encantos de pessoas, e passando pelo ambiente da casa, com os desenhos emoldurados. Quantos restaurantes você conhece que tem Angelo de Aquino na parede? Em suma, eu diria que o segredo do Guimas é que ele é um bistrôzinho francês, feito por um português, com uma adorável mistura carioca. Um dos mais bem-sucedidos exemplos de miscigenação tropical que eu conheço.

Verdade que, no começo, o bistrôzinho estava mais para botequim. Tinha salaminho e queijo Palmira mas, além disso, os amigos da casa levaram para lá um freezer, que encheram de garrafas de cerveja. Às vezes, durante à tarde, Chico sentava-se de frente para o freezer e punha as mãos na cabeça:

-- Meu Deus, o que é que eu vou fazer com isso?! Onde é que eu me meti?!

O contrato feito com o proprietário das três lojas que compõem o Guimas foi assinado prevendo o pagamento do ponto em seis meses. Se tudo desse certo, ao cabo do período Chico e Ricardo pagariam o valor estipulado; caso contrário, devolveriam as lojas, dando como pagamento as melhorias que haviam feito. Pois em dois meses o ponto estava devidamente quitado.

Cinco anos depois, o restaurante ganhou uma filial no Fashion Mall, que funcionou durante ótimos 14 anos até ser derrotada pela guerra do tráfico entre Rocinha e Vidigal, que afastou o público de São Conrado. Chico lembra-se dela com saudades. Ele sempre quis ter um bar, e lá conseguiu realizar o seu sonho.

-- O meu bar ideal é o P.J. Clarke’s, em Nova Iorque. O filho do dono viveu no Brasil quando era menino, fala até um pouco de português, e ficamos amigos, -- conta. – Quando abrimos o Guimas em São Conrado, fui lá, fotografei tudo e aproveitei vários detalhes no nosso bar. Ficou tão bom que volta e meia as pessoas nem queriam ir para as mesas, pediam para comer lá mesmo.

O Guimas teve filiais também no Barra Shopping e na Paul Redfern, mas essas foram experiências que não deram certo. A do Barra Shopping foi vítima de uma concepção errada de praça de alimentação que levou pelo ralo vários estabelecimentos; a da Paul Redfern nasceu condenada, porque Chico desprezou a sabedoria popular que marca certos pontos como “caveiras de burro”, lugares onde nada dá certo.

-- É incrível, mas caveira de burro existe mesmo, -- constata Chico. – Eu não acreditava nisso, mas é verdade. Aquele Guimas era ótimo, perfeitinho, mas as pessoas nem se lembravam de que existia...

A moral da história é que, nos planos para os próximos 30 anos, não há nenhum restaurante novo.

-- Nossos copos não são de cristal, nossas toalhas são de papel, mas esse Guiminhas da Gávea vai bem, e é muito pé quente.


(O Globo, Rio, 18.12.2011)

06/11/2010

 

Nunca houve tempo igual



As geladeiras eram importadas e os ventiladores um perigo para as crianças, com suas pás de metal desprotegidas. Comia-se manteiga sem culpa no café da manhã, almoçava-se em casa, jantava-se lautamente. Fotógrafos ganhavam a vida fazendo 3 x 4 na praça ou surpreendendo casais e famílias que passeavam na rua: os instantâneos ficavam prontos rapidinho, em menos de uma semana. As contas eram pagas em dinheiro vivo. O correio trazia cartas e telegramas. As cartas aéreas eram escritas em papel fino, para não ficarem pesadas e, por conseguinte, caras. Os comunicados fúnebres chegavam em envelopes com tarjas pretas, que lhes davam gravidade e os destacavam do resto da correspondência. A televisão era um aparelho de luxo, que apresentava programação local por algumas horas – e, mesmo assim, em pouquíssimos estados. Para o grande público, as notícias vinham pelo rádio e pelos jornais, que traziam informações de todo o tipo, das grandes manchetes ao resultado dos concursos públicos. O noticiário em imagens garantia a circulação das revistas semanais e a popularidade dos cine jornais, projetados nas sessões de cinema antes dos longa-metragens. Mães zelosas guardavam revistas para os trabalhos escolares dos filhos e, em toda casa com um mínimo de recursos, coleções de livros de referência para jovens tinham destaque nas estantes. Havia ótimo mercado para as enciclopédias, vendidas de porta em porta, em suaves prestações mensais. A palavra “tecnologia”, apesar de inventada em 1829, não fazia parte do vocabulário geral.

E, no entanto, a maior revolução jamais vivida pela humanidade estava em curso. Nada seria como antes, o que não é dizer pouco, ainda que a frase tenha se tornado banal: apenas nos dois séculos precedentes, com a Revolução Industrial, o mundo passou por mais transformações do que em todos os milhares de anos anteriores de História registrada. Já sabíamos que tudo pode mudar num piscar de olhos; só não sabíamos ainda que piscávamos tão depressa.

O Univac, primeiro computador comercial, fabricado, digamos, em massa – 46 unidades produzidas – foi lançado em março de 1951. Pesava 13 toneladas, tinha 5.200 válvulas e consumia mais energia elétrica do que um quarteirão bem iluminado. Por jurássicos que esses números nos pareçam hoje, o Univac representava um enorme avanço em relação às máquinas anteriormente desenvolvidas, capazes de lidar apenas com números e frequentemente chamadas, por justa causa, de “calculadoras”: projetado para trabalhar com informação numérica e de texto, ele marcou o início da Era da Computação de forma dramática.

Nas apertadíssimas eleições americanas realizadas no ano seguinte ao seu lançamento, o Univac previu a vitória de Eisenhower, quando todos os institutos de pesquisa apontavam Adlai Stevenson como vencedor. O pobre computador recém-nascidos foi desmoralizado pela televisão, que chegou a fazer um filmete troçando dos seus cálculos aparentemente absurdos, para pouco depois passar à categoria de oráculo sem igual. Essa máquina venerável e suas sucessoras prestaram bons serviços até a década de 70, quando finalmente se aposentaram com louvor.

Em meros 50 anos, a tecnologia alterou radicalmente o modo como vivemos. Nenhum aspecto do cotidiano ficou intocado, nenhuma pessoa escapou à sua influência. Mesmo as tribos mais remotas sentem de alguma forma o impacto da globalização. Se este impacto é para melhor ou pior é discussão apenas filosófica. Não há volta no caminho, porque não podemos ignorar hoje o que antes não tínhamos como saber.

* * *


Quem não estava no Maracanã no dia 16 de julho de 1950 estava, provavelmente, ouvindo rádio. Mas esqueçam a imagem clássica do torcedor de ouvido colado ao radinho de pilha: o transistor ainda não entrara em cena, e os rádios eram, em sua maioria, objetos de mesa. As válvulas impediam a miniaturização, fazendo com que mesmo os portáteis existentes fossem pesados e desajeitados.

A triste notícia da derrota da seleção brasileira para o Uruguai chegou ao povo entre chiados e ruídos. Mas este som quase inaudível estava por um fio – e por algumas baterias, e alguns componentes que fizeram grande diferença.

Quando o Brasil ganhou sua primeira Copa, em 1958, o rádio de bolso já existia há um ano. Era um lançamento da empresa que viria a se chamar Sony e, embora a concorrência observasse, com desdém, que os seus vendedores usavam camisas com bolsos desproporcionalmente grandes, o modelo “pegou” e popularizou-se num átimo. Ele é, por sinal, o aparelho de comunicação mais bem sucedido de todos os tempos: supõe-se que existam no mundo cerca de sete bilhões de unidades.
Na Copa de 2010, torcedores do mundo inteiro estarão com aparelhos igualmente pequenos em mãos -- telefones celulares poderosos, capazes de se conectar à internet, de desempenhar uma infinidade de funções e de transmitir, ao vivo, as imagens perfeitas da TV digital.

Poucas coisas resumem tão bem o vertiginoso salto da tecnologia neste último meio século quanto a comparação entre os gadgets dos torcedores das Copas da Suécia e da África do Sul. Tão próximos no tempo que, em muitos casos, são a mesma pessoa, apenas 50 anos mais velha, eles estão a tal distância tecnológica uns dos outros que, a rigor, poderiam viver em planetas diferentes. E, considerando o quanto a Terra mudou, vivem mesmo.

* * *


O transistor fez sua estréia no universo dos bens de consumo nos radinhos de bolso, que hoje nos parecem tão humildes e limitados; mas ele já funcionava em computadores, substituindo o arcaico sistema de válvulas, e foi etapa fundamental para o desenvolvimento do microchip, pequeno semicondutor que transmite informações num circuito integrado, apresentado em julho de 1959 por Bob Noyce, mais tarde um dos fundadores da Intel. Como acontece com freqüência quando o mundo está pronto para um salto dessas dimensões, havia várias idéias convergentes no ar: um ano antes, Jack Kilby havia proposto um modelo semelhante de circuito, mas o seu usava um elemento chamado germânio, em vez do silício escolhido por Noyce. No fim, as companhias para as quais ambos trabalhavam uniram forças e patentes, e estabeleceram o padrão para a indústria.

O resto é História. O microchip é, sem dúvida, uma das maiores invenções humanas, se não a maior. Já seria um prodígio pelo fato de, em todo o universo, não haver nada com semelhante densidade de energia; mas nenhum outro invento mudou tanto o mundo, e em tão pouco tempo. Vivemos cercados de microchips. Deles dependem os veículos que nos transportam, as nossas transações comerciais, as informações que recebemos, os alimentos que nos sustentam e, muitas vezes, até o ar que respiramos. Eles estão em equipamentos essenciais à nossa sobrevivência, como os marcapassos, e nas mais inúteis quinquilharias de camelô; nas ferramentas com que trabalhamos, em etiquetas de lojas, em brinquedos e até mesmo em animais, como implantes para identifica-los.

Escrevo no meu home-office, titulo pomposo para a biblioteca aqui de casa. Além do computador, há microchips no telefone de linha, nos dois celulares, no ar condicionado e em seu controle remoto, num reloginho que me informa as horas e a temperatura ambiente, nas duas câmeras fotográficas. E isso sem abrir as gavetas, verdadeiros ninhos deles, alojados que estão numa variedade de badulaques, do iPod a um cartão cafoninha de Boas Festas que toca Jingle Bells quando é aberto, e que não tive coragem de jogar fora porque, tendo acompanhado de perto a evolução da tecnologia, guardo ainda certo espanto diante de banalização tão radical.

* * *


Essa espetacular universalização do circuito integrado só foi possível graças a uma revolução paralela, menos comentada mas não menos importante: a do disco rígido, outro respeitável senhor que completou 50 anos recentemente. Lançado pela IBM, o Ramac (de ‘Random Access Method of Accounting and Control”) era o par perfeito para os “cérebros eletrônicos”. Tinha o tamanho de duas geladeiras, pesava uma tonelada, era cheio de não-me-toques e vinha com a mirabolante capacidade de armazenar 5 Mb, ao custo de US$ 10 mil por Megabyte. Como lembrara a Rand, não era equipamento para ser adotado pelos lares comuns.

Mas, já em 1980, notáveis progressos se registravam na área. A IBM apresentou o primeiro disco rígido de 1 Gigabyte, que ocupava o espaço de uma única geladeira e pesava só meia tonelada. E, em outro front, a Seagate lançava o primeiro disco rígido de 5”1/2, com capacidade 5 Mb, ao modesto preço de US$ 1.500. Em 1981, cheia de otimismo, a revista “Creative Computer” previu que, em futuro próximo, o custo de 128K de memória cairia abaixo dos US$ 100.

Seria cômico se não fosse assombroso. Tendo tal custo por base, há menos de 20 anos 256 Mb saíam a US$ 200 mil; em 2010, pen drives de 2 Gb são distribuídos como brindes e saem quase de graça. Os de 256 Mb nem são mais fabricados. O cartão de memória do meu celular, por exemplo, da metade do tamanho de uma unha, tem capacidade para 16 Gb.

Em suma: em cinco décadas, o custo de armazenagem por Megabyte passou de US$ 10 mil a uma fração de centavo absolutamente irrelevante. Para mim, que comprei um HD de 20 Mb em 1987 a US$ 750, há poucos milagres iguais ao do barateamento e da miniaturização da armazenagem, que nos permitiram vôos nunca antes imaginados. Na sua esteira vieram as interfaces gráficas, os notebooks miúdos que não deixam nada a desejar aos velhos mainframes, os iPods, os games, a fotografia digital... É uma gama infinita de aplicações, que pavimentou o caminho para A Invenção Que Mudou Tudo.

* * *


-- Como é que conseguíamos viver antes da internet?!

Como todo mundo, eu também perdi a conta do número de vezes em que ouvi ou formulei essa pergunta. E, embora tendo nascido bem antes dos anos 80, quando ela começou a se difundir, esqueci tudo. Recompor o mundo não-conectado é um exercício de imaginação impossível, que sempre deixa alguma coisa de fora.

Como encontravamos telefones e endereços? Como sabíamos quais filmes estavam em cartaz? Como descobríamos os horários dos vôo, a temperatura em Lisboa, o valor da rúpia? Onde estavam informações como a data de estréia de Casablanca, a idade da Brigitte Bardot, os recordes dos 50 metros de nado de peito? A quem recorríamos para saber como se tiram manchas? Como conseguíamos esperar meses por uma carta? Como dependíamos apenas dos discos que estavam nas lojas? Como fazíamos quando precisávamos da letra de uma música ou do trecho de um filme? Como elaborávamos o trajeto de casa para uma rua que não conhecíamos?

A resposta para essas questões, e tantas e tantas como elas, torna-se cada vez mais remota. É provável que, em breve, tornem-se tema de trabalho de escola e objeto de arqueologia urbana. E poderiam, desde já, virar um joguinho engraçado:

-- Quem sabe como...?

O fato é que, de 50 anos para cá, passamos a ser todos muito bem informados. Antigamente, a medida da curiosidade de uma criança restringia-se ao que sabiam os adultos à sua volta, aos eventuais livros de casa ou de uma possível biblioteca nas proximidades. Quem nascia longe dos grandes centros estava preso às limitações locais; geografia era destino.

Não mais. Com um pouco de curiosidade e uma conexão à internet, o velho ditado italiano passa, enfim, à realidade: tutto il mondo è paese. O mundo é uma aldeia.

* * *


Clico na barra do Word, que me informa que, até aqui, escrevi exatas 1.887 palavras, 11.380 caracteres. A tarefa está quase concluída, não há mais espaço. Clico novamente, desta vez no ícone do player, e a voz de Cesária Évora enche o escritório.

Os gatos espetam as orelhas, espreguiçam, ouvem por alguns instantes e voltam a dormir. E eu penso, pela enésima vez, em como a tecnologia nos transformou a todos em privilegiados. Houve um tempo em que só os reis podiam ouvir música quando bem entendessem -- e, ainda assim, ficavam limitados à orquestra da corte. Em breve, vou desligar o ar, por o computador em modo de espera e apagar a luz.

Agradeço à minha boa estrela, que me fez nascer na época certa.


(Do livro "50 anos construindo o futuro", publicado nos 50 anos da CBS Previdência)

09/08/2010

 

Programação:



Terça, 10 AGO
13h – Confinados, de Mrinal Sen (Antareen, Índia, 1994, cor, 35mm, 90 min, livre).
15h – Lagaan - a coragem de um povo, de Ashutosh Gowariker (Lagaan - Once Upon a Time in India, Índia, 2001, cor, 35mm, 224 min, livre)
19h – Laços, de Nagesh Kukunoor (Dor, Índia, 2006, cor, 35mm, exibição em digital, 147 min, livre)

Quarta, 11 AGO
13h – A terrorista, de Santosh Sivan (Theeviravaathi: The terrorist, Índia, 1999, cor, 35mm, exibição em digital, 95 min, 12 anos)
15h – Faça o que o seu coração mandar, de Farhan Akhtar (Dil Chahta Hai, Índia, 2001, cor, 35mm, exibição em digital, 180 min, livre)
18h30 - Devdas, de Sanjay Leela Bhansali (Devdas, Índia, 2002, 35mm, cor, 180 min, 12 anos)

Quinta, 12 AGO
12h – Você não está sozinho, de Rakesh Roshan (Koi... Mil Gaya, Índia, 2006, cor, 35mm, 176 min, livre)
15h30 – Iqbal, de Nagesh Kukunoor (Iqbal, Índia, 2005, cor, 35mm, exibição em digital, 127 min, livre)
18h - Bombaim, de Mani Ratnam (1995), 141 minutos (Bumbai, Índia, 1995, cor, 35mm, 141 min, 12 anos) + Debate: A Índia e o cinema: de Bollywood à Calcuttá, com Humberto Giancristofaro, José Carlos Monteiro e Raquel Valadares. Mediado pela curadora Gisella Cardoso.

Sexta, 13 AGO
13h30 – A rainha dos bandidos, de Shekhar Kapur (Bandit Queen, Índia, 1994, cor, 35mm, exibição em digital, 119 min, 16 anos)
16h – Siga em frente Munna Bhai, de Rajkumar Hirani (Lage Raho Munna Bhai, Índia, 2006, cor, 35mm, exibição em dvd, 144 min, livre)
19h – Do coração, de Mani Ratnam (Dil Se, Índia, 1998, 35mm, cor, 163 min, 12 anos)


Sábado, 14 AGO
10h15 – Como estrela na Terra, de Aamir Khan (Tare Zameen Par, Índia, 2007, cor, 35mm, exibição digital, 165 min)
13h30 – Zubeidaa, de Shyam Benegal (Zubeidaa, Índia, 2001, cor, 35mm, 150 min, livre)
16h30 – Um beijo na bochecha, de Mani Ratnam (Kannathi Muthamuttal, Índia, 2002, cor, 35mm, 130 min, livre)
19h30 - Maqbool, de Vishal Bhardwaj (Maqbool, Índia, 2003, cor, 35mm, exibição em digital, 132 min, 12 anos)


Domingo, 15 AGO
14h – Sr. e sra. Iyer, de Aparna Sen (Mr. & Mrs. Iyer, Índia, 2002, cor, 35mm, 120 min, livre)
16h30 – Três idiotas, de Rajkumar Hirani (03 Idiots, Índia, 2009, cor, 35mm, exibição em digital, 164 min, livre)
19h30 - Dança das sombras, de Adoor Gopalakrishnan (Nizhalkkuthu, Índia, 2002, cor, 35mm, 90 min, livre)

Terça, 17 AGO
13h – Faça o que o seu coração mandar, de Farhan Akhtar (Dil Chahta Hai, Índia, 2001, cor, 35mm, 180 min, livre)
16h30 – A rainha dos bandidos, de Shekhar Kapur (Bandit Queen, Índia, 1994, cor, 35mm, exibição em digital, 119 min, 16 anos)
19h30 – Confinados, de Mrinal Sen (Antareen, Índia, 1994, cor, 35mm, 90 min, livre)


Quarta, 18 AGO
13h – Você não está sozinho, de Rakesh Roshan (Koi... Mil Gaya, Índia, 2006, 176 min, livre)
16h30 - Zubeidaa, de Shyam Benegal (Zubeidaa, Índia, 2001, 35mm, cor, 150 min,livre)
19h30 – Um beijo na bochecha, de Mani Ratnam (Kannathi Muthamuttal, Índia, 2002, 35mm, cor/pb, 130 min,livre)

Quinta, 19 AGO
13h30 - Iqbal, de Nagesh Kukunoor (Iqbal, Índia, 2005, cor, 35mm, exibição em digital, 127 min, livre)
16h – Dança das sombras, de Adoor Gopalakrishnan (Nizhalkkuthu, Índia, 2002, 35mm, cor, 90 min, livre)
18h – Siga em frente Munna Bhai, de Rajkumar Hirani (Lage Raho Munna Bhai, Índia, 2006, cor, 35mm, exibição em digital, 144 min, livre) + Debate: Para onde aponta o cinema indiano contemporâneo? Com Cora Ronai, Ibirá Machado e Tatiana Monassa. Mediado pela curadora Gisella Cardoso.

Sexta, 20 AGO
14h – Maqbool, de Vishal Bhardwaj (Maqbool, Índia, 2003, cor, 35mm, exibição em digital, 132 min, 12 anos)
16h30 – Sr. e sra. Iyer, de Aparna Sen (Mr. & Mrs. Iyer, Índia, 2002, cor, 35mm, 120 min, livre)
19h – Três idiotas, de Rajkumar Hirani (03 Idiots, Índia, 2009, cor, 35mm, exibição em digital, 164 min, livre)

Sábado, 21 AGO
10h15 – Como estrelas na Terra, de Aamir Khan (Tare Zameen Par, Índia, 2007, cor, 35mm, exibição digital, 165 min)
13h30 – A terrorista, de Santosh Sivan (Theeviravaathi: The terrorist, Índia, 1999, cor, 35mm, exibição em digital, 95 min, 12anos)
15h30– Lagaan - a coragem de um povo, de Ashutosh Gowariker ( Lagaan - Once Upon a Time in India, Índia, 2001, cor, 35mm, 224 min, livre)
19h30– Bombaim, de Mani Ratnam (Bumbai, Índia, 1995, cor, 35mm, 140 min, 14 anos)

Domingo, 22 AGO
12h – Laços, de Nagesh Kukunoor (Dor, Índia, 2006, dvd, cor, 147 min, livre)
15h– Do coração, de Mani Ratnam (Dil Se, Índia, 1998, 35mm, cor, 163 min, 12 anos)
18h - Devdas, de Sanjay Leela Bhansali (Devdas, Índia, 2002, 35mm, cor, 180 min, 12 anos)

Debates

Debate 1 - Dia 12, às 20h20:

A Índia e o cinema – de Bollywood a Calcutá

Com Humberto Giancristofaro e Raquel Valadares. Mediado por Gisella Cardoso.

Debate 2 – Dia 19 agosto, quinta, às 20h20:

Para onde aponta o cinema indiano contemporâneo?

Com Cora Rónai, Ibirá Machado e Tatiana Monassa. Mediado por Gisella Cardoso.

28/02/2008

 

Como dar um comprimido a um gato


1. Pegue o gato e aninhe-o no braço esquerdo, como se estivesse segurando um bebê; segure o comprimido entre o polegar e o indicador da mão direita. Com o polegar e o indicador da mão esquerda, posicionados nos cantos da boca do gato, faça uma leve pressão para induzi-lo a abrir a boca. Ponha o comprimido na boca aberta e permita ao gato fechá-la, para que possa engulir.

2. Pegue o comprimido do chão e o gato de trás do sofá. Aninhe-o novamente no braço esquerdo e repita o processo.

3. Vá ao quarto tirar o gato debaixo da cama e jogue fora o comprimido lambuzado.

4. Tire um comprimido novo da caixa, encaixe o gato no braço esquerdo e segure suas patas traseiras com a mão esquerda. Force-o a abrir a boca e empurre o comprimido até a garganta com o indicador da mão direita. Feche a boca do gato imediatamente, e conte até dez antes de soltá-lo.

5. Tire o comprimido de dentro do aquário antes que envenene os peixes, e o gato de cima do guarda-roupa. Chame um amigo.

6. Ajoelhe-se no chão com o gato preso firmemente entre os joelhos, segurando suas quatro patas. Ignore os uivos histéricos do animal. Peça ao amigo que segure com força a cabeça dele, enquanto você abre a boca. Abaixe a lingua do gato com uma espátula de madeira e deixe o comprimido escorregar espátula abaixo até a goela. Esfregue o pescoço do gato.

7. Resgate o gato do trilho da cortina, abra a caixa e pegue um novo comprimido. Lembre-se se comprar nova espátula de madeira e de mandar consertar a cortina. Cuidadosamente enrole o gato numa toalha, de modo que apenas a cabeça fique de fora. Peça ao amigo para mantê-lo assim. Prenda o comprimido na ponta de um canudo, ponha o canudo na boca do gato e sopre com força.

8. Veja na bula do remédio se ele é nocivo para seres humanos. Beba água com açúcar para acalmar e para tirar aquele gosto horrível da boca. Ponha um bandaid no braço do amigo e lave o sangue do tapete com água morna e sabão.

9. Busque o gato no vizinho. Tire um novo comprimido da caixa. Ponha o gato dentro do armário da cozinha e feche a porta, mantendo apenas a sua cabeça do lado de fora. Abra-lhe a boca com uma colher de sobremesa e, com um elástico, acerte o comprimido direto na garganta.

10. Vá até a garagem e pegue uma chave de fenda para recolocar a porta do armário no lugar. Ponha uma compressa fria nos arranhões, e cheque se está com a vacina anti-tetânica em dia. Jogue a camiseta fora, e vista algo mais resistente.

11. Chame o Corpo de Bombeiros para tirar o gato do alto da árvore do outro lado da rua. Peça desculpas ao vizinho que bateu com o carro na cerca ao tentar desviar do gato. Tire o último comprimido da caixa.

12. Amarre as patas dianteiras e traseiras do gato com uma corda de varal, e prenda-o firmemente no pé da mesa de jantar. Calce luvas de jardinagem. Abra a boca do gato com uma pequena chave inglesa. Jogue o comprimido na garganta, seguido de um pedaço de filé mingnon; derrame água por cima para ajudá-lo a engolir.

13. Peça ao amigo para levá-lo ao pronto-socorro mais próximo. Não se preocupe, o médico vai dar anestesia local antes de suturar seus dedos e braços, e remover os estilhaços de comprimido que ficaram encravados no olho direito. Na volta, lembre-se de passar na loja de móveis e encomendar uma nova mesa de jantar.

14. Procure um veterinário que faça atendimento domiciliar.

05/05/2007

 

Eu sou o criminoso do caso PC Farias

Lucas Figueiredo


O governo Fernando Collor passou à História como sinônimo de corrupção. Da eleição (1989) ao impeachment (1992), a gangue que ocupou o Poder Executivo naquele período arrecadou US$ 1 bilhão com achaques, mutretas e golpes, segundo cálculos da Polícia Federal. A máquina de roubar ficou conhecida como Esquema PC, uma referência ao nome do tesoureiro da campanha presidencial de Collor, Paulo César Farias.

Como é sabido, com exceção de PC Farias, até hoje nenhum dos integrantes daquele grupo (empresários, políticos e autoridades) foi condenado em última instância pelos crimes cometidos. Collor, por exemplo, foi absolvido de todas as acusações, incluindo corrupção. (Ele cogita se candidatar a deputado federal por Alagoas nas próximas eleições.) O próprio Paulo César acabou sendo condenado por dois crimes, digamos, menores: falsidade ideológica (ele abriu contas bancárias com nomes falsos) e evasão de divisas. Só foi parar na cadeia, onde passou dois anos, porque fez a besteira de fugir do país.

O correto, portanto, seria refazer a frase da abertura deste artigo: o governo Collor passou à História como sinônimo de corrupção e também de impunidade.

E a impunidade atravessou os tempos. No dia 23 de junho de 1996, PC foi assassinado na sua casa de praia, em Maceió. O corpo do tesoureiro foi encontrado na cama, ao lado do corpo de sua namorada, Suzana Marcolino, ambos com um tiro de revólver calibre 38. Num primeiro momento, a Polícia Civil de Alagoas divulgou que Suzana teria matado PC e se suicidado. A investigação, no entanto, foi marcada pelas falhas, para dizer o mínimo.

Anos depois, pressionado pelo trabalho de investigação da imprensa, a polícia alagoana mudou sua versão do crime para duplo assassinato. Mesmo assim não foi capaz de dizer quem deu os tiros em PC e Suzana e quem mandou matá-los. Mais uma vez, os criminosos se safaram. E, ao que tudo indica, com muito dinheiro, já que a sobra do butim do Esquema PC nunca foi encontrado.

Esta é a história conhecida. Estou aqui para contar outra: eu sou o criminoso do caso PC Farias.

Comecei a escrever sobre os desmandos do governo Collor quando ainda estava na universidade. Recém-formado, fiz reportagens sobre o declínio do governo e sobre o impeachment. Em Brasília, como repórter, vi em 1994 a absolvição de Collor no Supremo Tribunal Federal. Dois anos depois, cobri em Maceió a morte de Paulo César e Suzana. O caso grudou em mim – e eu grudei no caso.

Nos quatro anos seguintes, dediquei-me a investigar as duas questões centrais do enigma PC/Collor. Ou seja, quem matou Paulo César Farias e onde foi parar o dinheiro do Esquema PC. Voltei a Maceió algumas vezes, e as pistas levantadas acabaram me levando à Itália, à Suíça, à Argentina, aos Estados Unidos e ao Uruguai. Não fui capaz de responder integralmente os enigmas, mas considero que fiz avanços. Em 1997, por exemplo, expus as ligações do Esquema PC com o crime organizado internacional. No mesmo ano, revelei que o Ministério Público de Alagoas tinha uma gaveta cheia (e fechada) com exames feitos por peritos e legistas independentes que indicavam que PC e Suzana tinham sido mortos por uma terceira pessoa. Outros informações vieram com o tempo, como os dados das contas de PC Farias no exterior, algumas delas ativas mesmo depois de sua morte.

No meio do caminho, como era esperado, esbarrei numa pressão brutal de quem preferia o mistério à luz. Fui ameaçado de morte em Alagoas e, em Houston (Texas), para onde fui atraído por um falso informante, escapei de uma arapuca.

No ano 2000, o resultado da minha investigação virou um livro: “Morcegos Negros: PC Farias, Collor, máfias e a história que o Brasil não conheceu”, publicado pela Record. Mesmo tendo passado oito anos do impeachment de Collor e quatro da morte de PC, o livro foi muito bem aceito, vendendo 30 mil exemplares, o que lhe rendeu 14 semanas na lista dos mais vendidos de revista Veja (categoria não-ficção). E foi assim que me tornei um criminoso.

Ainda no ano 2000, o juiz de Alagoas Alberto Jorge Correia de Lima (responsável pelo caso da morte de PC e Suzana) leu “Morcegos Negros” e não gostou. Ele entrou com um processo por danos morais, em Alagoas, contra mim e contra a editora Record. Na ação, o juiz questionava uma única frase do livro. A frase é a seguinte: “O juiz Alberto Jorge, que só reclamava, resolveu tomar uma atitude e solicitou à Secretaria de Segurança que indicasse um novo delegado para o caso”. Segundo o entendimento do juiz, ao dizer que ele “só reclamava” eu teria afirmado que ela nada fazia. Sendo assim, por vias tortas, eu teria afirmado que ele prevaricara.

A reclamação de Alberto Jorge foi aceita por seus colegas da Justiça de Alagoas, tendo início um processo kafkiano contra mim.

No julgamento de primeira instância, o juiz que analisou o caso não ouviu as minhas testemunhas, entre elas o senador Eduardo Suplicy e o ex-juiz Walter Maierovitch. E acabou por condenar a mim e a Record a pagar 350 salários mínimos, mais custas de advogado (aproximadamente R$ 200 mil, em valores corrigidos, um valor altíssimo para ações dessa natureza).

Tentei recorrer, mas na segunda instância Kafka voltou a atacar. O Tribunal de Justiça de Alagoas confirmou a condenação, mas, descumprindo uma norma sagrada da Justiça, não realizou corretamente a publicação do acórdão, deixando de intimar meu advogado local. Ou seja, fui condenado novamente, e dessa vez não fui avisado.

Ao verificar a falha, no dia 03 de agosto de 2004, entrei com uma petição no TJ de Alagoas comunicando o erro. Na petição, pedi a republicação do acórdão (ou seja, da sentença de condenação em segunda instância), a fim de que fosse aberto o prazo para eu recorrer da decisão. A petição foi recebida pelo tribunal, conforme comprovam duas fontes diferentes: o protocolo do TJ de Alagoas em meu poder e o site do tribunal (www.tj.al.gov.br), na seção de consulta a processos.

Além de entrar com a petição, enviei meu advogado, dr. Fernando Quintino, a Maceió. Em audiência com Quintino, o assessor de gabinete do TJ de Alagoas reconheceu o erro e afirmou que a sentença seria então publicada, reabrindo o prazo para que eu recorresse ao Superior Tribunal de Justiça, em Brasília. Passados quase dois anos, no entanto, o acórdão não foi republicado.

Em abril passado, meu advogado foi pessoalmente verificar o motivo de tanta demora. Foi quando tomei conhecimento de que minha petição simplesmente havia desaparecido do processo. O dr. Quintino folheou todo o processo e também não encontrou nenhum oficio solicitando ao tribunal a republicação do acórdão. Estava assim concluído Der Process: eu e Record éramos culpados.

Sim, eu me sinto perplexo, indignado e impotente diante do ocorrido. Mas ainda assim vejo um fio de coerência em toda essa história: se a gangue que se formou sob a sombra do governo Fernando Collor é inocente, eu só poderia estar mesmo do outro lado.


(Lucas Figueiredo é jornalista e escritor. É autor dos livros-reportagem Morcegos Negros (2000), Ministério do Silêncio (2005) e O Operador, publicados pela Record.)
 

O que é "contexto desfavorável"?

Paulo Coelho


Tenho uma grande admiração por Roberto Carlos -recentemente, um dos mais importantes programas da BBC Radio me perguntou a lista de cinco discos que eu levaria para uma ilha deserta, e incluí um dos seus. E, apesar dos problemas normais decorrentes de uma relação profissional, tenho um grande respeito pela editora Planeta, que publica minhas obras no Brasil e em vários países de língua espanhola.

Dito isso, é com grande tristeza que leio nos jornais que, na 20ª Vara Criminal da Barra Funda, em São Paulo, os advogados do cantor Roberto Carlos e da editora Planeta fizeram um acordo que prevê a interrupção definitiva da produção e comercialização da biografia não-autorizada "Roberto Carlos em Detalhes", do jornalista e historiador Paulo Cesar Araújo. O editor diz um disparate para salvar a honra, o cantor não diz nada e o autor fica proibido de dar declarações a respeito. E estamos conversados.

Estamos conversados? Não, não estamos, e tenho autoridade para dizer isso. Tenho autoridade porque, desde que publiquei meu primeiro livro, tenho sido sistematicamente atacado.

Creio que qualquer pessoa em seu juízo normal sabe que, a partir do momento em que sua carreira se torna pública, está exposta a ter sua vida esquadrinhada, suas fotos publicadas, seu trabalho louvado ou enxovalhado pelos críticos. Isso faz parte do jogo e vale para escritores, políticos, músicos, esportistas. Nem sempre essas críticas são justas e, muitas vezes, descambam para ataques pessoais.

Recentemente, um jornalista da mais importante revista brasileira disse que "Paulo Coelho não é apenas mais um mau escritor: seu obscurantismo é nocivo. Não se deve perdoá-lo pelo sucesso". Não sei o que estava propondo com essa frase, e não me interessa. Poderia alegar que minha honra está sendo atacada, que me acusa de ser um perigo para meu país, que deseja que eu seja preso. Mas vejo essas diatribes com outra ótica: elas fazem parte do jogo. A única coisa que não faz parte do jogo é a calúnia, e, pelo que me consta, isso não foi tema da ação judicial que levou à proibição de "Roberto Carlos em Detalhes".

Até hoje, desde que publiquei "O Diário de um Mago", há 20 anos, vi milhares de críticas negativas, mas apenas duas ou três calúnias a meu respeito, graças a Deus. Não me dei ao trabalho de contra-atacar porque não achei que valia a pena, embora me reserve esse direito se algo muito sério acontecer. Recentemente, em um jornal espanhol de primeiríssima linha, simplesmente inventaram uma resposta a uma pergunta a que havia me recusado responder. Claro, enviei uma carta ao diretor, e o jornalista teve que arcar com as conseqüências.

Estou pronto para defender minha honra, mas não vou perder um minuto do meu dia telefonando para um advogado e procurando saber o que faço para defender minha vida privada, já que ela não mais me pertence.

Diz o velho ditado: "Quem está no fogo é para se queimar". Eu acrescento: Quem está no fogo é para ajudar a fogueira a brilhar mais ainda. Não adianta o meu editor declarar que fez o acordo "porque o contexto era desfavorável". Ele precisa vir a público explicar qual é esse contexto -ou seja, se estamos falando de calúnia. Neste caso, tem meu apoio integral, pois calúnia é sinônimo de infâmia. Mas, caso contrário, está colaborando para que comece a se criar um sério precedente -a volta da censura.

Roberto Carlos tem muito mais anos na mídia do que eu; já devia ter se acostumado. Continuarei comprando seus discos, mas estou extremamente chocado com sua atitude infantil, como se grande parte das coisas que li na imprensa justificando a razão da "invasão de privacidade" já não fosse mais do que conhecida por todos os seus fãs.

Também continuarei sendo editado pela Planeta, pois temos contratos assinados. Mas insisto: gostaria que minha editora, dinâmica, corajosa, se instalando agora no Brasil, explicasse a todos nós, brasileiros, o que significa esse tal de "contexto desfavorável".

Desfavorável é fazer acordo a portas fechadas, colocando em risco uma liberdade reconquistada com muito sacrifício depois de ter sido seqüestrada por anos a fio pela ditadura militar.

E não entendo por que você, Paulo Cesar Araújo, "se comprometeu a não fazer, em entrevistas, comentários sobre o conteúdo do livro no que diz respeito à vida pessoal do cantor" (Ilustrada, 28/4). Não é apenas o seu livro, cujo destino foi negociado entre quatro paredes, que está em jogo. É o destino de todos os escritores brasileiros neste momento.

Não sei se vou ter as explicações que pedi. Mas não podia ficar calado, porque isso que aconteceu na 20ª Vara Criminal da Barra Funda me diz respeito, já que desrespeita minha profissão de escritor.

(Folha de São Paulo, 2.05.2007)

03/07/2005

 


Apaixonado por
Cuba -- ao longe


Vivendo no Canadá e escrevendo em inglês, o cubano José Latour traz da terra distante o cenário e a inspiração para seus romances

Uma das estrelas da III Festa Literária de Paraty é José Latour, autor de um dos melhores policiais lançados no Brasil este ano, "Mundos sujos". Ele se apresenta sábado, conversando sobre literatura policial com Luiz Alfredo Garcia-Roza e Marcello Fois. Nascido em Havana há 65 anos, vivendo há três em Toronto com a mulher, os filhos e a nora, Latour deve o sucesso deste seu primeiro romance escrito em inglês a um mix particularmente interessante de ingredientes, em que a uma trama original e movimentada junta-se a observação sensível de dois universos opostos. De um lado, a Havana miserável dos cubanos comuns, sem amigos poderosos, sem comida, sem fé no futuro; de outro, a Miami sem lei e sem privações, em que o consumismo alucinado tenta se impor como uma espécie de felicidade.

O autor, que já lançou mais um livro em inglês, Havana Best Friends, promete, até o fim do ano, a continuação de "Mundos sujos" -- alegria garantida para quem acompanhou as aventuras do professor Elliot Steil. No forno, tem ainda um ensaio sobre os problemas que seu país enfrentará depois do comunismo, e um romance histórico ambientado na Havana do Século XIX.

José Latour, que não consegue se afastar emocionalmente da Cuba natal, escolheu o Canadá para viver por lhe parecer o melhor dos países que conhece -- uma democracia solidamente estabelecida, onde os direitos humanos são respeitados:

-- Não há nações perfeitas -- disse, por email, para esta entrevista. -- Em toda parte há crime, corrupção e outras doenças sociais. A grande questão é descobrir com quanta imperfeição se pode viver.

Para parte da intelectualidade brasileira, Cuba continua sendo um modelo de independência, um pequeno Davi lutando contra o Golias americano. É possível uma ditadura do bem?

JOSÉ LATOUR: Inúmeros intelectuais mundo afora têm essa visão de Davi e Golias da ilha. O que eles não sabem é que o minúsculo Davi da cena mundial transforma-se num Golias impiedoso nos bastidores, uma criatura que mandou fuzilar milhares de adversários e sentenciou centenas de dissidentes pacíficos a longas penas em prisões infectas, o mais longe possível de onde vivem seus parentes e amigos, pelo "crime" de pedir eleições livres, um sistema político multipartidário, uma imprensa sem censura.

O que me deixa perplexo é que todos esses intelectuais exigem para si mesmos os direitos e liberdades que a ditadura cubana nega ao povo. Eles criticam abertamente seus governos, denunciam abusos de poder e corrupção, participam de movimentos e passeatas contra o governo. Ninguém em Cuba pode fazer nada disso.

Acredito que todos têm direito à sua opinião, mas os princípios são, ou deveriam ser, inflexíveis; de outra forma, passa-se a usar dois pesos e duas medidas. Se você acha que a liberdade de expressão é um direito humano básico e a exige para si mesmo, não deveria apoiar um regime que, em outro país, aprisiona pessoas só porque gostariam de fazer o que você faz.

Uma das grandes ironias da política cubana é que o primeiro homem que pegou em armas para lutar contra a ditadura tornou-se, ele próprio, um ditador em grande estilo. E não, não há ditadura "boa" ou "do bem".

Fala-se muito na excelência dos sistemas de educação e saúde cubanos, mas mesmo eles não se salvam incondicionalmente no seu romance "Mundos sujos". Como é a realidade em Cuba para os cubanos comuns, aqueles que não têm padrinhos políticos?

LATOUR: Alguns adversários do comunismo cubano recusam-se a admitir conquistas, e isso acaba funcionando contra eles. Nenhum governo consegue ser totalmente mau e injusto, ou integralmente bom e correto. O que Cuba conseguiu nos campos da educação e da saúde pública nos últimos 40 anos é o sonho de todo o Terceiro Mundo. Sim, a educação é de uma servidão ideológica chocante, mas nenhuma criança cubana fica sem escola ou professor. Sim, faltam remédios e os hospitais têm carência de tudo, de equipamentos de Raio-X a reagentes químicos para análises clínicas, mas o mais remoto vilarejo cubano conta com um médico que pode chamar uma ambulância e remover seus pacientes para o hospital mais próximo. Oferecer educação e atendimento médico gratuitos a todos os cidadãos é excelente. Privá-los do exercício de seus direitos civis, porém, é altamente perverso, pois os transforma em escravos. Saudáveis e educados, sim, mas escravos.

A percepção que se tem, por livros como "Mundos sujos" ou filmes como "Guantanamera", é que pequenos delitos e roubos na agências governamentais institucionalizam-se num país onde, freqüentemente, não se ganha o suficiente para sobreviver. Esta é a mesma percepção que me dão, aliás, filmes e livros que têm por cenário a antiga União Soviética. É um tipo diferente de roubo daquele que se vê no Brasil, onde a corrupção é generalizada, mas onde roubar da repartição não chega a ser propriamente uma necessidade vital, de modo que você ainda pode se dar ao luxo de ser uma pessoa honesta, se assim o desejar.


LATOUR: Assim como em tantas economias de mercado há homens de negócios que lutam por lucrar cada vez mais, de todas as maneiras possíveis, éticas ou não, na ilha -- dada a indiscutível falência econômica do sistema -- a maioria dos funcionários públicos tenta trabalhar o mínimo e roubar o máximo possível. Este problema atinge hoje tais proporções que a população não percebe mais o roubo de bens do Estado como um crime passível de punição. Médicos, dentistas e enfermeiros roubam remédios, comida e roupa de cama. Operários roubam cimento, madeira e areia. Professores e burocratas roubam papel, canetas e peças de computador. Ladrões de gado abatem entre 20 mil e 30 mil cabeças por ano.

Se todo mundo que rouba ou já roubou alguma coisa fosse para a prisão, provavelmente metade da população estaria encarcerada.

Fiquei muito impressionada com a falta de solidariedade e apoio aos dissidentes cubanos presos por Fidel Castro recentemente. Há alguma explicação racional para isso?

LATOUR: Na minha opinião houve solidariedade e apoio, sim, ainda que não tanto quanto eu teria gostado de ver. Talvez uma das razões para a pouca repercussão deste apoio esteja, justamente, naquela visão de Davi e Golias que discutimos antes, e no papel dos intelectuais de esquerda como formadores de opinião. A outra razão, com certeza, é que a única coisa que realmente funciona bem em Cuba é a propaganda. Assim que os dissidentes foram presos, a máquina entrou em funcionamento, espalhando que eles eram agentes do governo americano. O problema é que algumas pessoas são tão ingênuas que conseguem acreditar numa besteira dessas.


A sociedade cubana que o senhor retrata é um lugar de alta periculosidade para os que insistem em pensar por si mesmos. Mas o outro lado do espelho, ou seja, os cubanos de Miami, também não são pintados com boas tintas em "Mundos sujos". Nenhuma das opções o agrada. O que o senhor acha que vai acontecer em Cuba quando Fidel morrer? Há alguma possibilidade de que, no futuro, olhando para trás, as pessoas sintam saudades dos "bons velhos tempos" do castrismo?

LATOUR: As pessoas não me desagradam. Nem em Cuba, nem nos Estados Unidos, nem em lugar algum. Acredito piamente que, em todos os países, 90% das pessoas são gente direita e trabalhadora. Mas, entre os 10% restantes, encontramos uns tipos realmente asquerosos: políticos com sede de poder, criminosos, ladrões, falsários, torturadores...

Quando nós humanos olhamos para trás, podemos ver cinco mil, dez mil ou mesmo um milhão de anos do passado. Mas, quando tentamos olhar para a frente, ninguém pode prever sequer o que vai acontecer amanhã de manhã.

Estou publicando um breve um ensaio a respeito das questões com que a sociedade cubana vai ter de lidar depois do comunismo, mas não faço idéia de quando isso acontecerá. Acontecerá, porém, seguramente. O sistema está política e moralmente corroído, não funciona. Não funcionou na União Soviética e em nenhum país europeu. A China e o Vietnã estão fazendo progressos econômicos porque nesta área, especificamente, deixaram de ser países comunistas.

Naturalmente, alguns cubanos vão sentir falta do comunismo. Isso ainda acontece na Rússia, onde milhares de cidadãos continuam adorando Stalin. Mas o primeiro governo não comunista de Cuba vai ter que tomar um cuidado enorme em certas áreas, como emprego, educação, saúde pública, impostos e política monetária, por exemplo, para não alienar mais pessoas do que aquelas que inevitavelmente lamentarão os novos tempos.

Por melhor que se desenvolvam a democracia e a economia de mercado numa Cuba pós-comunista, meu palpite é que uns 15% ou 20% da população, sobretudo entre os mais velhos e os menos educados, mais todos aqueles que sempre se deram bem lambendo as botas do ditador, vão sentir muitas saudades dos "bons velhos tempos".

Como o senhor conseguiu sair de Cuba? O senhor pretende voltar a viver lá? Do que sente mais falta?

LATOUR: Tenho a impressão de que certas pessoas ficaram contentes com o fato de eu pedir permissão para viajar com a minha família toda, e instruíram os burocratas nos lugares certos a me deixar sair. De modo que não houve nada aventuroso ou perigoso na minha saída da ilha. Vou decidir se volto ou não quando a ditadura comunista desmoronar. Acho que o que mais falta me faz é a minha cultura, no sentido mais amplo da palavra. Cultura como a mistura de uma infinidade de coisas, não apenas música, literatura ou pintura, mas um camponês cultivando o seu pedacinho de terra, uma mulher bonita a caminho do trabalho, o motorista do ônibus fazendo piadas, o cheiro do pão fresco, e centenas de outras coisas -- sons, vistas, cheiros, gostos. Instruí meu filho e minha filha a espalharem minhas cinzas ao largo de Havana, caso eu morra antes do fim do comunismo.

O senhor continuará a escrever em inglês? É muito difícil escrever numa língua na qual não se cresceu?

LATOUR: Sim, continuarei a escrever em inglês, e sim, é muito difícil fazê-lo! Aprendo novidades a cada dia. Tive que comprar, e consulto constantemente, o Chicago Manual of Style, o último Roget's Thesaurus, o Webster. Felizmente a gramática e a sintaxe do inglês não são tão complicadas quanto as do espanhol.

O senhor está trabalhando atualmente em algum livro novo? Ele será também ambientado em Cuba?

LATOUR: Agora em novembro sai um novo romance meu nos Estados Unidos, uma continuação de "Mundos sujos". Talvez seja publicado também no Brasil, vamos ver. Em breve publicarei o ensaio sobre Cuba de que falei antes; e estou escrevendo um novo romance, ambientado na Cuba do Século XIX. É o meu primeiro romance histórico, e estou muito entusiasmado com ele. Ah, esquece: eu sempre fico entusiasmado com o novo livro que estou escrevendo.

(O Globo, Segundo Caderno, 3.7.2005)

07/06/2005

 

Onde está a verdade e onde está a mentira?

Arnaldo Jabor


A mentira virou verdade? Diante dos vídeos e telefonemas gravados os acusados batem no peito e berram: ?É mentira!?. Parecem existir dois brasis: um Brasil roído por ratos políticos e um outro Brasil povoado de anjos e ?puros?. E o fascinante é que são os mesmos homens. O povo está diante de um milenar problema fisiológico (ups!) ? isto é, filosófico: o que é a verdade? O que é a mentira? A verdade são os crimes evidentes que a PF descobre ou os desmentidos dos que os cometeram? No Brasil, acaba sendo o discurso do poder vigente. A anomalia do Judiciário protege a ?verdade/mentira? (no Brasil formam uma unidade dialética), com o lema de que ?o réu é inocente até que se prove o contrário?. Tudo bem, só que aqui nada prova nada nunca: nem o cheque assinado na Suíça, nem a conta nas Ilhas Jersey ou a evidência do roubo no TRT paulista (lembram?).

Nossas ?verdades? institucionais foram construídas por 500 anos de mentiras. Portanto, virou uma razão de Estado a proteção à mentira brasileira inventada pela secular escrotidão portuguesa, que criou o DNA dos canalhas que vemos hoje na TV negando tudo. Se a verdade aparecesse em sua plenitude, nossas instituições cairiam ao chão. Mas tudo está ficando tão claro, insuportável, que, talvez, tenhamos de correr esse risco de quebra, apesar do perigo de que a direita virá correndo restabelecer a paz ?da verdade das mentiras?. Por isso, o governo acha que é necessário proteger as mentiras para que a falsa verdade do país permaneça.

O presidente entra dizendo que vai usar a verdade para combater a mentira e logo, logo, está usando a mentira para fazer valer sua nova ?verdade?.

Lula diz: ?Eu dou cheque em branco ao Roberto Jefferson?. Sabemos que é mentira, pois Lula pensa: ?A verdade não pode ser dita; preciso da mentira para que o sistema não caia, para que o PT não se esfacele e para que eu me reeleja. Eu minto em nome de uma verdade maior!? FHC usava os ladrões também, mas lhes impunha sutis limites; o PT despreza a democracia ?burguesa? e abriu a porteira com desdém pelos ladrões e ficou prisioneiro deles, sem contar os neoladrões petistas.

Lula mente para si mesmo, achando que só defende a ?causa do povo? ? que, aliás, é um pouco ?verdade?, pois está defendendo sua própria causa, porque, afinal, ele é ?do povo?, ou melhor, ?era?, antes de subir na vida, ostentando sua saga de vendedor de picolé em Santos até beijar deslumbrado a mão da imperatriz do Japão.

Vejamos outro símbolo do momento: as lágrimas de Suplicy no Senado, assinando a CPI. Foram lágrimas de crocodilo ou lágrimas de verdade? Par ou ímpar? Bem... começou como mentira, passando a perna nos companheiros de partido que iam assinar. Foi oportunista ou sincero? Talvez as duas coisas? Agora, faturando o desprestígio do governo, parece verdadeiro e está eufórico, fazendo cooper .

E o Genoino? Quando acusa o FHC pelo caso da pasta rosa, sabe que está mentindo, que aquilo foi uma chantagem, mas acredita na mentira ?de esquerda?.

E as fazendas imaginárias do Jucá, que continuam produzindo? E os 40 mil caminhões do mogno arrancado da Amazônia com papéis falsos? E o caso do IRB, com o ex-presidente Lídio Duarte, herói por três dias, desafiador dos corruptos que voltou atrás no depoimento? Qual o verdadeiro Lídio, o corajoso ou o covarde? E o magnífico, o insuperável Mauricio Marinho, dos Correios, que confessou seus roubos para o vídeo? Que prazer perverso deve ter tido naquele orgasmo de verdades, revelando suas mentiras?

E o José Dirceu? Qual o verdadeiro Dirceu? O velho bolchevista que se disfarçava em nome do socialismo ou o Dirceu ?democrático?? Dirceu é pelo Palocci ou não? Dirceu viveu clandestino dentro da própria vida, com operação plástica em Cuba, durante quatro anos de casamento. Qual era o verdadeiro? O falso marido ou o revolucionário em campanha?

O próprio Dirceu talvez não saiba. Para os comunas clássicos, a vida real não é verdadeira. Sua missão é algures, mais além da vida ?burguesa?. Pensam: ?A vida como a conhecemos é uma mentira; logo, a verdade está onde ela não está, além dessa realidade careta, feita de esposa, filhos, casa. A verdade é algo que não existe ainda e que nós, até mentindo, poderemos um dia atingir?.

E o assassinato de Celso Daniel ? óbvio que ulula (não o Lula), ?ulula? à nossa frente pela trapalhada ridícula que foi, visível a olho nu ? que foi logo abafado para que a verdade do que aconteceu não atrapalhasse a verdade do que ainda não aconteceu e que será, um dia, a ?luminosa? apoteose do PT, salvando a pátria dos idiotas que acreditam na mentira do tempo presente e que não sabem sonhar com a utopia do operário-Cristo subindo ao céus?

E o meu ídolo, meu megastar , o fascinante Roberto Jefferson, o Pavarotti do PTB? Onde está sua verdade? Está no elefante do passado, quando comia na mão do Collor, ou estará no Jefferson de hoje, de barriga operada, magro, cantando ópera para o Lula ? Onde estará esse homem impalpável? Está no ?rolha de poço? ou no Fred Astaire? Aliás, há algo em comum entre a operação plástica de Dirceu e a de Jefferson: ambos se esconderam dos outros e de si mesmos. Os dois queriam ocultar o passado: um revolucionário e o outro, digamos, patético, do ?Povo na TV?. Jefferson fez uma espécie de autocrítica na imprensa: ?Eu era brutal, dava tiro; depois me curei, emagreci e hoje canto óperas!?. Quando virá a autocrítica de Dirceu? Jefferson e Dirceu também são ubíquos: os dois estão em toda parte. Não há um escaninho do Executivo em que Dirceu não se meta e não há uma estatal na qual Jefferson não tenha cumbuca. E os dois lutam contra a CPI; um não quer a CPI para que a verdade ?revolucionária? não sucumba; e o Jefferson, para que não se descubra que continua voraz, ?comendo? de tudo, apesar da cirurgia do estômago. Dirceu engordou ? era um gato nas passeatas de 67 ? e Jefferson emagreceu, mas continuou um gato.

E nós, uns patos.


O Globo, Segundo Caderno, 7.6.2005)

20/11/2004

 

Hear hear!

To the citizens of the United States of America:

In the light of your failure to elect a proper President of the USA and thus to govern yourselves, we hereby give notice of the revocation of your independence, effective today. Her Sovereign Majesty Queen Elizabeth II will resume monarchical duties over all states, commonwealths and other territories. Except Utah, which she does not fancy. Your new prime minister (The Right Honourable Tony Blair, MP for the 97.85% of you who have until now been unaware that there is a world outside your borders) will appoint a minister for America without the need for further elections. Congress and the Senate will be disbanded. A questionnaire will be circulated next year to determine whether any of you noticed. To aid in the transition to a British Crown Dependency, the following rules are introduced with immediate effect:

1. You should look up "revocation" in the Oxford English Dictionary. Then look up "aluminium". Check the pronunciation guide. You will be amazed at just how wrongly you have been pronouncing it. The letter 'U' will be reinstated in words such as 'favour' and 'neighbour', skipping the letter 'U' is nothing more than laziness on your part. Likewise, you will learn to spell 'doughnut' without skipping half the letters. You will end your love affair with the letter 'Z' (pronounced 'zed' not 'zee') and the suffix "ize" will be replaced by the suffix "ise". You will learn that the suffix 'burgh is pronounced 'burra' e.g. Edinburgh. You are welcome to respell Pittsburgh as 'Pittsberg' if you can't cope with correct pronunciation. Generally, you should raise your vocabulary to acceptable levels. Look up "vocabulary". Using the same twenty seven words interspersed with filler noises such as "like" and "you know" is an unacceptable and inefficient form of communication. Look up "interspersed". There will be no more 'bleeps' in the Jerry Springer show. If you're not old enough to cope with bad language then you shouldn't have chat shows. When you learn to develop your vocabulary then you won't have to use bad language as often.

2. There is no such thing as "US English". We will let Microsoft know on your behalf. The Microsoft spell-checker will be adjusted to take account of the reinstated letter 'u' and the elimination of "-ize".

3. You should learn to distinguish the English and Australian accents.It really isn't that hard. English accents are not limited to Cockney, upper-class twit or Mancunian (Daphne in Frasier). You will also have to learn how to understand regional accents. Scottish dramas such as "Taggart" will no longer be broadcast with subtitles. While we're talking about regions, you must learn that there is no such place as Devonshire in England. The name of the county is "Devon". If you persist in calling it
Devonshire, all American States will become"shires" e.g. Texasshire, Floridashire, Louisianashire.

4. Hollywood will be required occasionally to cast English actors as the good guys. Hollywood will be required to cast English actors to play English characters. British sit-coms such as "Men Behaving Badly" or "Red Dwarf" will not be re-cast and watered down for a wishy-washy American audience who can't cope with the humour of occasional political incorrectness.

5. You should relearn your original national anthem, "God Save The Queen", but only after fully carrying out task 1. We would not want you to get confused and give up half way through.

6. You should stop playing American "football". There is only one kind of football. What you refer to as American "football" is not a very good game. The 2.15% of you who are aware that there is a world outside your borders may have noticed that no one else plays "American" football. You will no longer be allowed to play it, and should instead play proper football. Initially, it would be best if you played with the girls. It is a difficult game. Those of you brave enough will, in time, be allowed to play rugby (which is similar to American "football", but does not involve stopping for a rest every twenty seconds or wearing full Kevlar body armour like nancies). We are hoping to get together at least a US rugby sevens side by 2005. You should stop playing baseball. It is not reasonable to host an event called the 'World Series' for a game which is not played outside of America. Since only 2.15% of you are aware that there is a world beyond your borders, your error is understandable. Instead of baseball, you will be allowed to play a girls' game called "rounders" which is baseball without fancy team strip, oversized gloves, collector cards or hotdogs.

7. You will no longer be allowed to own or carry guns. You will no longer be allowed to own or carry anything more dangerous in public than a vegetable peeler. Because we don't believe you are sensible enough to handle potentially dangerous items, you will require a permit if you wish to carry a vegetable peeler in public.

8. July 4th is no longer a public holiday. November 2nd will be a new national holiday, but only in England. It will be called "Indecisive Day".

9. All American cars are hereby banned. They are cr*p and it is for your own good. When we show you German cars, you will understand what we mean. All road intersections will be replaced with roundabouts. You will start driving on the left with immediate effect. At the same time, you will go metric with immediate effect and without the benefit of conversion tables. Roundabouts and metrication will help you understand the British sense of humour.

10. You will learn to make real chips. Those things you call French fries are not real chips. Fries aren't even French; they are Belgian though 97.85% of you (including the guy who discovered fries while in Europe) are not aware of a country called Belgium. Those things you insist on calling potato chips are properly called "crisps". Real chips are thick cut and fried in animal fat. The traditional accompaniment to chips is beer which should be served warm and flat. Waitresses will be trained to be more aggressive with customers.

11. As a sign of penance 5 grams of sea salt per cup will be added to all tea made within the Commonwealth of Massachusetts, this quantity to be doubled for tea made within the city of Boston itself.

12. The cold tasteless stuff you insist on calling beer, is not actually beer at all, it is lager. From November 1st only proper British Bitter will be referred to as "beer", and European brews of known and accepted provenance will be referred to as "Lager". The substances formerly known as "American Beer" will henceforth be referred to as "Near-Frozen Knat's Urine", with the exception of the product of the American Budweiser company whose product will be referred to as "Weak Near-Frozen Knat's Urine".This will allow true Budweiser (as manufactured for the last 1000 years in Pilsen, Czech Republic) to be sold without risk of confusion.

13. From December 1st the UK will harmonise petrol (or "Gasoline" as you will be permitted to keep calling it until April 1st 2005) prices with the former USA. The UK will harmonise its prices to those of the former USA and the Former USA will, in return, adopt UK petrol prices roughly $6/US gallon - get used to it).

14. You will learn to resolve personal issues without using guns, lawyers or therapists. The fact that you need so many lawyers and therapists shows that you're not adult enough to be independent. Guns should only be handled by adults. If you're not adult enough to sort things out without suing someone or speaking to a therapist then you're not grown up enough to handle a gun.

15. Please tell us who killed JFK. It's been driving us crazy. Tax collectors from Her Majesty's Government will be with you shortly to ensure the acquisition of all revenues due (backdated to 1776).

07/11/2004

 

Cercada de traquitanas, jornalista antecipa tendências tecnológicas


Há quase 20 anos analisando evolução da informática, Cora é referência para quem quer entender a cibercultura

por Mari-Jô Zilveti


A vida da jornalista Cora Rónai passou por mudanças radicais depois que ela abandonou sua segunda máquina de escrever elétrica, fiel companheira por dez anos. Não se importava de ter gastado US$ 1 mil, afinal sua IBM havia permitido que ela errasse sem culpa, podendo corrigir seus textos à vontade.

Em 1986, quando estava pronta para desembolsar a mesma quantia por outra máquina elétrica, um amigo a convenceu que por esse valor ela poderia comprar um microcomputador com mais recursos.

Alto lá, por recursos entenda-se digitar, redigitar e jogar xadrez. Cora deu-se por vencida, mas acabou gastando US$ 2,2 mil por um micro que, na época, não tinha espaço para gravar dados. Era necessário salvar os os textos em disquetes de 5 1/4 polegadas, artifício extinto hoje e incapaz de guardar uma fotografia digital de altíssima qualidade para fazer uma impressão do tamanho de um pôster.

Um ano depois, Cora que sempre havia escrito sobre cultura, achou que era necessário criar um espaço nos jornais para falar sobre computação pessoal. Agora era sua vez de convencer alguém. Bateu inúmeras vezes na porta do diretor de redação do Jornal do Brasil, onde trabalhava na época. "Não sei se ele topou por insistência, lembro-me que a coluna foi publicada em economia, em ciência. Até na seção de náutica, ela saiu."

Foi provavelmente a primeira coluna que relatava semanalmente experiências de usuários. Cora admite que era um espaço para uma tribo de no máximo dez pessoas no Rio de Janeiro, entre elas, os escritores Rubem Fonseca e Millôr Fernandes.

A tribo foi ganhando adeptos e Cora acabou fazendo mais amigos, com os quais travava discussões intermináveis sobre programas para editar textos, o preferido por alguns escritores, o que tinha mais recursos para acentuar ou para imprimir. "Nem posso contar as inúmeras noites que passei desenvolvendo um programa para conseguir fazer uma tabela de conversão para que uma Epson imprimisse textos no Volks-Writer ou no WordStar."

No final dos anos 80, houve uma segunda mudança radical na vida da jornalista. A reserva de mercado de informática chegava ao fim. Hoje, Cora lembra rindo que ter computador importado em empresas era crime.

"Se alguém fizesse uma denúncia, lá vinha a polícia e apreendia tudo." Passados vários anos, ela ainda prefere não revelar nomes de duas grandes editoras que mantinham o CPD - Centro de Processamento de Dados - com equipamentos no banheiro feminino ou em parede falsa. "E se alguém ressuscitar algum imposto atrasado?"

Enquanto o País resolvia suas idiossincrasias com a reserva, havia sempre alguém tentando fazer seu micro funcionar. Aliás, é de Millôr a seguinte frase: "Computador é uma máquina genial rodeada de três imbecis perguntando por que não funciona". Hoje, acredita Cora, a tecnologia está mais familiar para o leigo, mas "é inegável, sempre dá pau". Prova disso é o gravador digital, do qual a repórter teve de abrir mão, após malsucedidas tentativas de gravar a entrevista para a Rádio Eldorado.

Máquinas que dão pau nunca fizeram a jornalista largar do vício de tecnologia. Ela sempre saiu na frente comprando novidades em traquitanas digitais.

Apesar de se considerar conservadora, tem sempre câmeras digitais de todos os tipos. Usa quatro celulares, três deles com câmera digital e já perdeu a conta do número de palmtops que passaram pela sua mão. Desistiu de um Clié, da Sony, e agora não desgruda de um palmtop com câmera digital. Seu gravador também é digital.

Apesar de continuar praguejando quando algum equipamento dá pau, Cora enviou as gravações para o rádio da varanda de seu apartamento, em frente da lagoa Rodrigo de Freitas, com transmissão sem fio.

Quando ela pensou que a tecnologia estava um marasmo, veio a internet. Isso foi no início dos anos 90. "Nunca mais consegui ficar entediada. Muito menos sair da área de tecnologia." A internet explodiu, milhões de pessoas entraram na rede, criaram seus sites, criou-se a mensagem indesejada, que ganhou o apelido de spam e rende até hoje inúmeras reportagens.

Paralelamente, surgiu outro mundo, o da imagem digital. A viciada em traquitanas não hesitou em comprar sua câmera digital, que fazia fotinhos que não mereciam ser impressas.

Hoje, Cora anda munida com duas máquinas a tiracolo. Isso sem falar nos celulares que tiram fotos. Indagada se celular com câmera digital é um modismo, contesta: "Daqui a alguns anos, vamos olhar para trás e vamos nos perguntar como usávamos celular sem câmera. A imagem é uma informação. Você fala com seu interlocutor do outro lado do mundo e mostra a roupa que quer comprar." Há uma proximidade que ele promove. E preconiza que "há uma nova forma de recado. A câmera será parte fundamental de um aparelho".

Enquanto o século 21 dava seus primeiros passos e Cora disparava seus cliques, a internet ganhou novo fôlego. Nasceram os diários virtuais - os blogs.

"O grande impacto do blog é a facilidade de uso. Os ciberdiários levam a liberdade de imprensa a todos. Qualquer um passa a ser 'imprensa'. O que significa que todos podem dar seu recado."

Opina que o blog é uma grande ferramenta de liberdade, "na medida que fica muito difícil, a partir dele, um governo ocultar uma coisa, uma ditadura impedir a informação das pessoas, em qualquer parte do mundo". Não é à toa que seu blog www.cronai.com atrai centenas de leitores e vira pauta para sua crônica semanal no caderno de cultura do Globo, onde ela edita o suplemento Informática Etc.

Onde há um computador, uma pessoa e uma conexão pode haver um blog, pode haver uma fonte de informação da maior importância. "O blog não se limita ao mundo adolescente. Isso não desmerece a ferramenta. Serve a todos, como os jornalistas independentes que cobriram a Guerra do Iraque."

LINK : Estado de São Paulo, 8.11.2004

Arquivos

09/01/2001 - 10/01/2001   10/01/2001 - 11/01/2001   11/01/2001 - 12/01/2001   12/01/2001 - 01/01/2002   02/01/2002 - 03/01/2002   10/01/2002 - 11/01/2002   03/01/2003 - 04/01/2003   05/01/2003 - 06/01/2003   07/01/2003 - 08/01/2003   09/01/2003 - 10/01/2003   04/01/2004 - 05/01/2004   05/01/2004 - 06/01/2004   07/01/2004 - 08/01/2004   09/01/2004 - 10/01/2004   11/01/2004 - 12/01/2004   06/01/2005 - 07/01/2005   07/01/2005 - 08/01/2005   05/01/2007 - 06/01/2007   02/01/2008 - 03/01/2008   08/01/2010 - 09/01/2010   11/01/2010 - 12/01/2010   12/01/2011 - 01/01/2012   01/01/2012 - 02/01/2012   02/01/2012 - 03/01/2012  

This page is powered by Blogger. Isn't yours?